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sexta-feira, 25 de julho de 2014


A primeira impressão que o texto de China Miéville passar é de empolamento. Suas frases cheias de referências são grandiloquentes, criando descrições intensas e lembrando a escrita de Sagarana, passando a ideia de texto produzindo, pensando e obviamente cinematográfico. Às vezes soa artificial, e mesmo quando delicioso, reconhecemos um certo artificialismo.

Dizer que não lembra uma série de outros autores seria uma mentira, ao mesmo tempo que dizer que não é original. Miéville é original a seu termo, pois seu foco não é na história, mas no ambiente. Recria a trama mais batida da literatura inglesa: após morte do pai, com quem tem pouco contato, SAUL GARAMOND, descobre-se ligado a uma sinistra criatura que lhe apresenta uma visão distinta de sua Londres. Daí surge o fantástico, uma herança e um conflito com uma criatura que põe em risco a sua existência.

O autor procura descrever uma Londres com um pé no real e outro no onírico; assim como explicar ao leitor parte do conceito musical que inspira o trabalho – parte, porque em última instância quem não tem contanto com aquele estilo não poderá compreender perfeitamente o ritmo que Miéville tenta criar.

Há um sabor de DEPOIS DE HORAS, ALICE, DEUSES AMERICANOS, apenas para ficar nos mais óbvios. Há também um quê do “menino príncipe injustiçado”, ainda que disperso em tanto texto. Miéville corre um sério risco de virar um pastiche de ideias já executadas como maestria por outrem. Num determinado momento força uma história de romance entre um príncipe rato e uma sem-teto louca. Seria terno, exceto que não há sexo (na sequência e no livro) e que ao leitor é impossível esquecer o fedor dos personagens. Se algo consegue ultrapassar do livro é o sentido do olfato. Os personagens fedem!


Às vezes o conflito de Saul em assumir uma herança não convence. Em contraponto sua rápida aceitação de sua nova condição, também não. É diferente dos diálogos que vemos, por exemplo, em UM OCEANO NO FIM DO CAMINHO de Neil Gaiman, que, de tão realistas, soam artificiais. Se em Gaiman é apenas o diálogo que é artificial e provoca um choque, aqui parte do cenário soa artificialmente, forçado. Tudo parece bloco de texto cuidadosamente costurados seguindo uma receita.

Mas Miéville consegue criar bons diálogos e cenários, ambos cinematográficos, como já disse. E isso salva o livro e nos provoca a continuar a leitura. Falta evidentemente uma motivação verdadeira ao seu vilão, pois perseguir o sobrevivente não se sustenta a não ser que estejamos lendo FÁBULAS (em tempo o livro é de 1998 e Fábulas, a série em quadrinhos da VERTIGO é de 2001).

Mesmo com uma tradução que busca explicar a sonoridade cockney de um dos personagens e a dezena de termos musiciais, o livro tem ritmo e é fácil de ser lido. Porém sempre fica uma impressão de distanciamento. De estarmos assistindo e não imersos na trama, por isso nem mesmo algumas reviravoltas na trama soam surpreendentes de fato. Soam como um gigantesco “passo a passo do novo escritor”, pontuais; as vezes imperceptíveis; mas ao mesmo, estão aí tão estruturados que sabemos alguns lances com páginas – e capítulos – de antecedência.

REI RATO, China Miéville, ISBN 978-85-61541-29-3, tradução Alexandre Mandarino, Tarja Editorial, 2011.
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Written by Lovely

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