Pular para o conteúdo principal

Review: O homem que vendeu a Lua

O homem que vendeu a Lua, Robert A. Heinlein, Coleção Mundo Fantástico, 1977, Livraria Francisco Alves Editora, 297 páginas.

Há um certo fascínio dos leitores com a cronologia.

Vejam os exemplos dos “advogados de regras” dos quadrinhos americanos, capazes de citar com certeza quando cada coisa aconteceu e onde. Estes mesmo advogados são capazes de anular parte do cânone de um herói por lembrarem que a premissa vai em desacordo com o estabelecido em outra aventura.

Histórias de ficção de tomam um tom épico como a História do Futuro da Humanidade de Heinlein, A fundação do Asimov – inserindo em sua cronologia Os robôs como o autor fez próximo ao fim da vida e tornando tudo uma única macro-história da humanidade, ou ainda obras de fantasia medieval como O senhor dos anéis tem um fascínio mítico no leitor, seja pela qualidade dos material, seja pelo nível de acertos ou ainda pela acurada descrição dos seres humanos presentes nas tramas.

Mas também parece que em alguns casos o simples fato de criar uma linha cronológica e continuar e trabalhar nela já valoriza uma obra.

Mas a reunião de contos em “O homem que vendeu a Lua” é sofrível, incapaz de impressionar leitores já contaminados pelas narrativas de Jules Vernes, onde o homem conseguia quebrar todas as barreiras – veja Viagem à Lua – ou Asimov com seus cientistas capazes de antever fatos apenas com a observação pura e simples.

É certo que o primeiro conto “A linha da vida” é impressionante e o segundo - “Faça-se a luz” - é bem revelador sobre a natureza das patentes, mas os restantes tem um feito principal de servir apenas para cimentar um cenário maior, seja com a introdução da natureza militar nos engenheiros ou o foco de que todo empreendimento deve ter uma grande natureza comercial como no maior conto da coletânea. Este, em especial, é por demais verborrágico e concentrado no aspecto administrativo do feito de levar o homem à lua – Heinlein por sinal previu a chegada para 1.978, quase uma década depois do fato histórico. Verborragia, por verborragia, Viagem à Lua com seus dois volumes longos é mais interessante – e certamente mais fantasioso.

Os contos presentes são a base de toda uma estrutura narrativa vindoura, mas não impressionam em início. Como várias histórias de quadrinhos, parece uma trama onde você tem que ler muitos enxertos para saborear a história principal. Comparando de forma simplificada, seria como para ler e entender uma aventura atual do Aranha eu tivesse de ler todas as 700 edições de The Amazing Spider-Man. Se nos quadrinhos não funciona, que dirá da ficção.

Mas diferentes de A fundação, As Crônicas Marcianas ou por exemplo Batman, não sabemos quem é o personagem principal – talvez a humanidade? - e então fica difícil apreciar pois não é possível ao leitor comum deixar de tomar um lado e defendê-lo ardorosamente como o seu.

Não é de se estranhar que diante de tantas reedições recentes de ficção na Editora Aleph ou publicações novas, o verborrágico e inconstante Heinlein ainda não tenha ganho nova edição. Segundo li na pesquisa, seu maior feito foi polemizar em seu Starship Troopers onde “(...) Foi acusado de fascista por que nesse romance a estrutura social do mundo exigia que o cidadão, para votar, tivesse servido nas forças armadas.

Visto que Heinlein é parte de uma “santíssima trindade da ficção científica” junto com Asimov e Arthur C Clarke, é natural que haja gente disposto a defendê-lo cegamente. Mas ainda que seja possível encontrar aqui as sementes das futuras polêmicas, O homem que vendeu a Lua é uma coletânea que só serve para mostrar que nem sempre os melhores autores nascem prontos.

Coleção Mundo Fantástico
Vol
Título
1
A espada diabólica – Michael Moorcock
2
Os Dentes do Inspetor – L. Sprague de Camp
3
Contos da Taberna – Arthur C. Clarke
4
Construtores de Continentes – L. Sprague de Camp
5
O homem que vendeu a Lua – Robert A. Heinlein
6
Parasitas da mente – Colin Wilson

Postagens mais visitadas deste blog

EaD: Como estudar sozinho em casa

Lost – A sexta temporada: Um resumo bem pessoal de Lost, até o episódio 9 da sexta temporada.

Existe uma ilha com propriedades magnéticas e místicas. Magnéticas por que há um contador da energia que se acumula na ilha. E místicas por que ela possui um mecanismo que pode ser utilizado para alterar sua posição no tempo e espaço.

Dois seres habitam esta ilha. Um deles, Jacob, está impedindo que o outro, ainda sem nome, saia.

Jacob pode sair da ilha e pode atrair pessoas para lá.

A função de Jacob é impedir que o outro saia da ilha. O segundo deseja matar Jacob para poder sair.

Este segundo pode se tornar uma fumaça escura que agrupada pode se tornar pessoas – geralmente entes queridos mortos – ou ser usada para destruição. Durante muitos anos, nós expectadores, achávamos que era nano-tecnologia que tem conceito semelhante.

Em 1.867 um navio chega a ilha trazendo Ricardo que se tornará agente externo de Jacob. Ricardo se torna imortal graças aos poderes de Jacob.

Um núcleo de pessoas sempre habitou a ilha. Possivelmente atraídos por Jacob. Sempre.

Após enterrar uma bomba de hidrogên…

O único animal, Luís Fernando Veríssimo

O homem é o único animal...
...que ri
...que chora
...que chora de rir
...que passa por outro e finge que não vê
...que fala mais do que papagaio
...que está sempre no cio
...que passa trote
...que passa calote
...que mata a distância
...que manda matar
...que esfola os outros e vende o pêlo
...que alimenta as crias, mas depois cobra com chantagem sentimental
...que faz o que gosta escondido e o que não gosta em público
...que leva meses aprendendo a andar
...que toma aula de canto
...que desafina
...que paga pra voar
...que pensa que é anfíbio e morre afogado
...que pensa que é bípede e tem problema de coluna
...que não tem rabo colorido, mas manda fazer
...que só muda de cor com produtos químicos ou de vergonha
...que tem que comprar antenas
...que bebe, fuma, usa óculos, fica careca, põe o dedo no nariz e gosta de ópera
...que faz boneco inflável de fêmea
...que não suporta o próprio cheiro
...que se veste
...que veste os outros
...que despe os outros
...que só lambe os outros
...que tem cotas de emigração
...qu…