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Espelho, Espelho Meu

Review de "The Sorrows of Empire", por Ben Santana


Um dos mais interessantes e cultuados episódios de Jornada nas Estrelas, foi com certeza “Mirror, Mirror” (outubro de 1967). Escrito por Jerome Bixby, ele mostrou pela primeira vez o chamado Universo Espelho, um universo paralelo a aquele que os espectadores da então nascente franquia estavam acostumados.

Se o universo da Federação era quase uma utopia, onde a principal preocupação era a exploração e conhecimento, de “buscar novas vidas e novas civilizações”, esta realidade paralela tinha como centro um Império que buscava a riqueza e o poder. Imagino que boa parte das primeiras pessoas que assistiram o dito episódio não perceberam a costumeira alegoria que Gene Roddenberry permeou toda a sua série: o Universo Espelho era o nosso, ou seria se continuássemos (como continuamos) fazer o que fazemos desde então.

Em “Mirror, Mirror”, graças a um dos acidentes cósmicos tão comuns em Jornada nas Estrelas, Kirk, McCoy, Scotty e Uhura trocam de lugar com as suas contrapartes e fazem de tudo para tentar voltar, mas sem antes (é claro) deixar a semente para a revolução em tal Império. O Spock do Universo Espelho admite que o Império esteja fadado a acabar, uma conseqüência, uh, lógica que sempre aconteceu na História desde que os primeiros seres humanos decidiram se agrupar e conquistar os outros de sua espécie.

Mas que o Universo Espelho era extremamente charmoso, era. Muito mais que a asséptica Federação. Afinal de contas, um lugar onde se recebia uma promoção por acabar com o seu superior (e isso ser ético) é, não um espelho que mostra um reflexo distorcido, mas sim uma imagem real do que acontecia na década de sessenta, quando o episódio foi ao ar e com certeza hoje também. É claro, não colocamos nossos subalternos dentro de uma gaiola para serem torturados ou enfiamos um punhal nas costas de nossos chefes, pelo menos não literalmente. De novo, a tal alegoria pela qual Roddenberry era tão fascinado...

É claro que tal universo pululou em diversas mídias durante as décadas seguintes. Quadrinhos o usaram, alguns romances também. Mas foi só na década de noventa que ele voltou à televisão, na terceira série da franquia (quarta, se considerarmos a série animada), Deep Space Nine, que a partir de sua segunda temporada teve cinco episódios usando os conceitos estabelecidos em “Mirror, Mirror”. Nestes episódios, vemos que o Império realmente caiu, exatamente como nas previsões feitas por Kirk ao Spock do Universo Espelho.

Em 2005, na última das franquias de Jornada nas Estrelas, Enterprise vemos um dos mais brilhantes episódios feitos com os conceitos do Universo Espelho desde o original de 1967. Feito em duas partes, “In a Mirror, Darkly” (título retirado da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios) ao contrário dos outros episódios, se passa totalmente no universo paralelo. Uma solução brilhante, já que cronologicamente Enterprise se passa muito antes dos eventos do episódio original, e desta forma não altera os cânones da série clássica, que estabeleceu que o primeiro contato com o universo paralelo foi em “Mirror, Mirror”.

Em outro episódio da série clássica, “Tholian Web”, vemos que a nave USS Defiant, uma das irmãs da Enterprise NCC 1701 está lentamente saindo de fase e desaparecendo. Apesar de não ser informado no episódio clássico, em Enterprise é estabelecido que a própria raça dos tholianos está roubando a nave e transportando-a no espaço e tempo para o Universo Espelho. Archer toma a nave, e graças à tecnologia superior, vira a batalha final em que o Império está perdendo, preparando-se para se tornar o novo Imperador. Plano que fracassa, justamente pelo ethos daquele universo. Archer é traído por um membro de sua própria equipe e uma nova imperatriz toma o poder de um agora mais forte Império, graças a tecnologia superior a bordo da Defiant.

Entre os acontecimentos dos episódios da série original e os de Deep Space Nine, quando vemos a ruína do Império, vários anos se passam. E parte deles são explicados de forma espetacular no romance “The Sorrows of the Empire” (Pocket Books, 2009, ISBN-13 978-1439155155), de David Mack, veterano escritor dos livros de Jornada nas Estrelas.

O livro, que se passa inteiramente no Universo Espelho começa com Spock quebrando o pescoço de Kirk e assumindo o comando da ISS Enterprise graças à ajuda de Marlena Moreau, a concubina do Capitão. Kirk tinha subido ao poder graças aos habituais assassinatos e massacres, mas também a uma máquina que ele tinha descoberto em uma de suas expedições, o Campo Tantalus, que simplesmente fez que seus inimigos desaparecessem.

De posse desta máquina e de uma das coisas mais raras dentro do Império, a lealdade de Moreau, lentamente Spock pavimenta seu caminho para se tornar o novo Imperador e em seguida abolir de vez o Império. Uma frase do Kirk do “nosso” universo calou profundamente naquele Spock: “em toda revolução existe um homem com uma visão.” E tal homem é Spock. Ele escolhe destruir o Império da maneira, como não poderia deixar de ser, mais lógica possível: de dentro para fora.

O livro é extremamente bem construído, se passando em um período de trinta anos, mostrando que a derrocada orquestrada por Spock não poderia ser feita de maneira rápida, mas sim lenta e gradualmente. E todos os atos cometidos por ele, inclusive os mais brutais (como a destruição de várias naves sem mesmo levantar uma sobrancelha) tem uma função no final...os fins, no caso do plano de Spock, justificam os meios. E Mack escreve o personagem de uma maneira tão interessante que, apesar de tudo isso, nós não podemos deixar de simpatizar com ele.

É claro, é um livro de um fã para outros fãs e uma verdadeira caça ao tesouro para aficionados da série clássica (como é meu caso). Versões alternativas de vários personagens que apareceram na Série Clássica pululam em cada página. Os Decker, Matt e Will (pai e filho, vistos respectivamente em “Doomsday Machine” e em Star Trek: The Motion Picture), Saavik e a Doutora Carol Marcus (de Star Trek II: The Wrath of Khan) são apenas alguns dos tantos outros que aparecem no romance. Além disso, Mack mostra alguns personagens de sua outra série de romances de Jornada nas Estrelas, Vanguard.

“The Sorrows of the Empire”, devo admitir, não é um livro para todos. Mas até aí quase todas as centenas de romances de Jornada nas Estrelas não são. Não é um livro de ficção científica, mas um livro de Jornada nas Estrelas, que presume que o leitor esteja familiarizado com o universo ali tratado. Mas para aqueles que gostam da série, não importando em qual grau, é um daqueles romances que se torna difícil de largar até a última página, mesmo você sabendo qual será o inevitável fim.

É aquele velho aforismo que diz que a jornada é mais interessante que o destino final.

E aqui, a jornada é magistral.

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