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Uma década perdida?

Muito mais que ler, o fã de quadrinhos – não gosto da expressão gibiota – tem uma dura tarefa à sua frente, que é separar o joio do trigo. Leitores como eu, que lêem temas que vão dos super-heróis (principalmente) à ficção científica, passando pelo western italiano ou à pornografia (Druuna e Black Kiss, por mais do tentem falar não são nada além de pornografia) tem uma missão infinita que somente os anos podem dar a verdadeira compreensão dos fatos. Os mais óbvios simplesmente diriam que é um vício incontrolável que permite que uma pessoa sã e articulada compre dezenas, centenas e milhares de histórias que não suprem sua necessidade criativa.

A década perdida ao meu ver é o período 1.993-2.008, não exatamente uma década eu sei. Neste período a produção de quadrinhos apresentou um cansaço natural e não conseguiu manter material bom, produzindo coisas redundantes, repetições e sem valor como aventura, arte ou mesmo como passatempo.

É uma opinião controversa e falível, já que eu mesmo sustento que existe muito material bom neste período.
Bem, vamos por partes.

A década de 1.980 terminou como sempre, com a liderança da Marvel que tinha uma seqüência de obras de excelente qualidade. As primeiras experiências com material adulto já tinham dado bons resultados no início da década e estava em ascensão novamente o gênero super-herói.

Experiências da Marvel Comics com seus anuais em “Guerra do Alto Evolucionário” (1988) e “Guerra Atlantes” (1.989) provaram que os leitores gostavam de histórias seriadas envolvendo os personagens da casa. Muitos títulos atravessavam períodos, que, se não eram excelentes, não se havia realmente do quê reclamar, pois eram histórias bem narradas. Hulk de Peter David, Homem Aranha de David Micheline, X-Men de Chris Claremont, Namor de John Byrne, Wolverine de Larry Hama, Justiceiro por vários autores provavam que o universo Marvel conseguia se sustentar mês a mês sem haver necessidade de grandes eventos.
Mas eles sugiram...

Jim Starlin talvez seja o maior culpado. Dono de um estilo único de narrar histórias envolvendo sempre questões éticas, morais e messiânicas, Starlin é pouco lembrado por seu personagem maior, Dreadstar, que foi publicado por aqui em Epic Marvel (Editora Abril) e em sua própria série (Dreadstar, Editora Globo, onde ganhou também duas graphic novels, Odisséia Cósmica - por favor não confundam com a minissérie da DC - e O preço), e mais lembrado por sua participação nas séries Warlock, Capitão Marvel, Surfista Prateado e a Trilogia do Infinito. Sabendo escrever histórias longas e com desdobramento e tendo criado o embrião das tramas cross-over com suas tramas publicadas por aqui em “A saga de Thanos”, voltou para a Marvel em 1.988 e assumiu a série do Surfista Prateado ressuscitando Thanos o quê levaria aos eventos Desafio Infinito (1990), Guerra Infinita (1991) e Cruzada Infinita (1992). Seria uma trama de proporções épicas e que realmente faz sentido, ainda que extensa simplesmente por motivos comerciais.

Desde 1986, nos títulos mutantes a editora experimentou integrações – Guerras Asgardianas, Massacre dos Mutantes, A queda dos mutantes, Inferno são exemplos – que sempre tinham dado certo economicamente falando. Por quê? Ao fazer um evento integrado a editora sempre atraia uma parcela do público da série principal para a série secundária. E havia a possibilidade matemática dele continuar a adquirir a série.

Em 1.989 este conceito se estendeu às séries regulares com Atos de Vingança, e a partir daí todo verão norte-americano tinha um ou vários eventos para atingir os leitores. Com uma estrutura legal, este evento concebido por John Byrne não tinha série própria e sim os cross-over de maior ou menor importância nas séries mensais da Marvel, sendo que as mais importantes iam narrando os eventos fundamentais.

Apesar da paralisação da criação de sagas entre 2.000-2.003, feito provocado por Joe Quesada quando assumiu a editora, de modo a arrumá-la, os quadrinhos funcionam em ciclos e hoje ainda temos bons eventos que transcorrem em uma mini-série principal e os títulos dos personagens como Guerra Civil, World War Hulk e Invasão Secreta.

Na época do sucesso de Starlin a Marvel se departamentalisou! Explico: cada personagem principal teria um sub-universo que funcionaria afastado parcialmente criando uma micro-cronologia da própria, mas ligado ainda à macro-cronologia da editora. Assim Justiceiro (que então tinha 3 séries) ganhou um sub-universo e as histórias corriam entre seus títulos, começando em um, terminando em outro. O mesmo com o Aranha (4 títulos, 1 por semana); com os mutantes (na soma uns seis títulos!, mas já houver época de nove a doze títulos); com os títulos de “terror juvenil mas não adulto” que eram iniciados por Motoqueiro Fantasma (as séries Motoqueiro Fantasma, Blaze, Nightstalkers, Morbius entre outras) e os títulos dos heróis vinculados a Os Vingadores, quase uma dezena.

A DC Comics já tinha adotado este formato de sub-universo em algumas séries, e seus maiores exemplos são com o Superman e o Batman. No Superman, que já tinha quatro séries mensais, simplesmente transformou em capítulos semanais e isto durou entre 1.991-1.999. Com o Batman não havia a obrigação existente com o Superman, mas invariavelmente os eventos de verão tinham continuidade entre os quatro títulos do homem-morcego e ainda as séries Robin, Aves de Rapina, Mulher-Gato, Azrael e Asa Noturna em maior ou menor quantidade.

Isto fez com que a séries fossem produzidas em ritmo industrial, sem preocupação com qualidade de material, em geral apenas para cumprir a obrigação do título da semana. De certa forma também prejudicou os personagens, estendendo alguns eventos que poderiam ter sido melhores se tivessem apenas uma ou duas histórias.

Se as séries dos personagens já estavam prejudicadas o quê dizer da verdadeira dezena de minisséries que eram lançadas a cada mês?

Isto tem dois motivos. Um é que a Marvel agora era uma empresa da Bolsa de Valores e necessitava apresentar relatórios trimestrais que mostrassem aos seus donos que o mercado continuava a crescer. Outro é que no biênio 1991/92 ficou claro que o que estava atraindo a atenção dos leitores era a arte de algumas séries. Todd McFarlane, Rob Liefeld, Jim Lee e Marc Silvestri, somados a Jim Valentino (Guardiões das Galáxias, que nunca foi uma série importante, diga-se de passagem) e Erik Larsen (no máximo um substituto de McFarlane), eram artistas que estavam fazendo as séries que trabalhavam vender!

Unidos decidiram fazer uma oferta a Tom DeFalco que negou, oferecendo uma linha no selo EPIC. Curiosamente esta linha realmente chegou a acontecer com os autores que ficaram na editora, mas não teve nenhum sucesso comercial e nenhum título importante.

Os autores se afastaram e fizeram uma carta aberta explicando que acreditavam ser a razão das vendas e que queriam uma editora que publicasse suas séries, seus personagens, mas que os direitos autorais fossem deles. A Malibu Comics aceitou e assim os autores criaram cada um deles um estúdio ou uma editora, se unindo em uma “editora-selo” a Image Comics, que uniria os estúdios de cada um dos autores.

Meses depois a Malibu saiu do esquema e foi comprada pela Marvel, que absorveu seu Ultraverse com resultados pífios, ainda que a Mythos Editora tenha achado interessante publicar alguns deles por aqui. Destes encontros o quê merece maior relevância é Conan versus Rúnico, publicado pela Editora Abril com texto & arte de Barry Windsor-Smith. Note que a tradição de comprar editoras menores, algo bastante comum à DC Comics, nunca teve critério qualitativo e sim acumulativo. A Marvel nunca utilizou realmente os personagens do Ultraverse, além de uma meia dúzia de séries de pouca expressão.

A situação do mercado era a seguinte: a Marvel tinha bons roteiristas e novos artistas (quase todos iniciantes); a Image tinha bons artistas que se metiam a roteiristas, quase todos pífios e a DC funcionava em núcleos, onde a Vertigo iam bem e várias séries de heróis também, mas no geral não apresentava nada de novo.

Com o lançamento da Image mais séries chegavam no mercado e aí perdesse a completa noção do quê é bom ou ruim simplesmente pela completa impossibilidade de acompanhar tudo. Quem apostaria em ler um material como Supremo?

Assim, reconhecendo a sua deficiência, os artistas-donos da Image contratam bons autores para trabalhar em suas séries, onde se destacam Neil Gaiman (Spawn, Medieval Spawn, Ângela), Alan Moore (Violador, Supremo, WildCATS), James Robinson (WildCATS) e Garth Ennis (Darkness). Com isso a Image legalizou aquilo que surgiu para combater, eu seja, artistas eram contratados para cuidar de personagens a que não tinham direitos!

Hoje apesar de ser uma editora com alto share of mind, a Image tem baixo share of heart, o quê significa a grosso modo que muitos se lembram da editora, mas poucos compram. Seu atual maior sucesso, maior mesmo que as séries Spawn e The Savage Dragon, que iniciaram a editora, é a excepcional série The Walking Dead de Robert Kirman, que também faz para a editora The Invencible e The Astounishing Wolf-man (Walking Dead e Invencible são publicadas no Brasil em formato de álbuns de forma bissexta pela HqManiacs Editora). Com vendas que beiram 25 mil cópias, The Walking Dead está posicionado no geral em torno da 40ª posição do Top 300.

A Marvel e a DC queriam atrair e manter a atenção dos leitores e afastá-los da Image e fizeram isso inundando o mercado com séries, sagas, edições especiais e minisséries. Quando virão que poderia funcionar aumentaram a dosagem a níveis cavalares!

Há, sem dúvida, dezenas de séries boas neste período. Algumas são excepcionais, muitas são apenas boas e outras apresentam histórias que poderiam ter sido melhor aproveitadas. Um bom exemplo são os quatro arcos “Contágio”, “O legado do demônio”, “Terromoto” e “Terra de ninguém”, todos do sub-universo do Batman, histórias legais, que divertem funcionam bem, e mesmo quando começam a ficar grandes são encerradas. Um mal exemplo é “Superman Azul/Vermelho” e “Gigantes do Milênio”, a primeira renderia, no máximo, uma história ou um arco mensal, e a outra é mais uma trama gigantesca – perdão do trocadilho – que não leva a nada...

Se você pensa que era exclusividade da DC Comics, lembre que a Marvel fez “Heróis Renascem” e vários arcos mutantes, hoje bastante inexpressivos como “Operação: Tolerância Zero” e “Os Doze”. Mesmo autores que tem a habilidade de excelência como Kurt Busiek, que fez fenomenais 60 números da série The Avengers, volume 3 são capazes de produzir aventuras insignificantes como “Segurança Máxima”, certamente fruto de uma interferência editorial acirrada!

Nota-se que sempre existem histórias boas para serem contadas. Dar limite para estas histórias talvez seja uma boa maneira de aproveitá-las ao máximo (Preacher, Sandman, Y: o último homem). Às vezes a limitação a uma única edição funciona tão bem quanto (Coringa: o advogado do diabo, Dr. Estranho & Dr. Destino: Triunfo & Tormento), impedindo que a trama se perca em infinitas extensões. Mesmo escritores e séries consagradas tem períodos diferenciais. O humor negro de Justiceiro na linha Marvel Knights, destoa completamente na linha Marvel Max, mas isto por si só não é sinal de excelência. Ainda assim, uma trama quase folhetinesca, o arco “Mãe Rússia”, é um excelente ponto a favor do personagem, que não raro exagera demais no tom.

Escolher o quê foi bom ou ruim nesta década perdida é complicado, mas meu objetivo foi expor por que houve tantos títulos publicados e como isso diminuiu a qualidade geral das séries. Espero que tenha ficado claro.

Até mais!

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