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Mil sóis esplêndidos

Khaled Hosseini escreveu “O caçador de pipas” e na esteira do sucesso “A cidade do sol” (A thousando splendid suns).

Afegão de nascimento, fugiu para os EUA assim que houve o endurecimento do regime. A fuga serviu de inspiração para parte de “O caçador de pipas”.

Em seu segundo romance temos a visão do sofrimento e humilhação de duas mulheres em um país em constante e caótica revolução.

Para piorar tudo elas são mulheres e um grupo religioso autoritário se estabeleceu no poder e acredita que “mulher” é um ser inferior.

Longe das tristezas de ambas as narrativas, é possível construir um painel claro sobre as mudanças políticas no Afeganistão e um exemplo claro de um dos caminhos que a teocracia pode nos levar.

Gostaria de transcrever o texto da página 244 de A cidade do sol que relata um panfleto educativo distribuído pelos governantes locais para disciplinar sua população – o mesmo texto estava sendo transmitido nos rádios e alto-falantes:

“Nosso watan chama-se agora Emirado Islâmico do Afeganistão. Eis as leis que começam a vigorar e às quais todos devem obedecer.
Todos os cidadãos devem rezar cinco vezes ao dia. Quem for apanhado fazendo outra coisa nas horas de oração será espancado.
Todos os homens deverão deixar crescer a barba. O comprimento correto é pelo menos um punho fechado abaixo do queixo. Quem não cumprir essa determinação será espancado.
Todos os meninos devem usar turbante. Os estudantes da primeira à sexta série usarão turbantes negros, os alunos das séries superiores usarão turbantes brancos. Todos deverão usar trajes islâmicos. O colarinho das camisas deve ser abotoado.
É proibido cantar.
É proibido dançar.
É proibido jogar cartas, jogar xadrez, fazer apostas e soltar pipas.
É proibido escrever livros, ver filmes e pintar quadros.
Quem possuir periquitos será espancado, e os pássaros, mortos.
Quem roubar terá a mão direita cortada na altura do pulso. Quem voltar a roubar terá um pé decepado.
Quem não é muçulmano não pode realizar seu culto em lugar onde possa ser visto por muçulmanos. Quem fizer isso será espancado e detido. Quem for apanhado tentando converter um muçulmano à sua fé será executado.
Atenção mulheres:
Vocês deverão permanecer em casa. Não é adequado uma mulher circular pelas ruas sem estar indo a um local determinado. Quem sair de casa deverá se fazer acompanhar de um mahran, um parente de sexo masculino. A mulher que for apanhada sozinha na rua será espancada e mandada de volta para casa.
Vocês não deverão mostrar o rosto em circunstância alguma. Sempre que saírem à rua, deverão usar a burqa. A mulher que não fizer isso será severamente espancada.
Estão proibidos os cosmésticos.
Estão proibidas as jóias.
Vocês não deverão usar roupas atraentes.
Só deverão falar quando alguém lhes dirigir a palavra.
Não deverão olhar um homem nos olhos.
Não deverão rir em público. A mulher que fizer isso será espancada.
Não deverão pintar as unhas. A mulher que fizer isso perderá um dedo.
As meninas estão proibidas de freqüentar a escola. Todas as escolas femininas serão imediatamente fechadas.
As mulheres estão proibidas de trabalhar.
A mulher que for culpada de adultério será apedrejada até a morte.
Ouçam.
Ouçam bem.
Obedeçam.
Allah-u-akbar.”
(extraído de A cidade do sol de Khaled Hosseini)


Isto foi em setembro de 1.996.

O país vivia em caos desde a invasão comunista em 1.979, alguns defendem que antes. O endurecimento começou em 1.992 quando a Cabul virou uma praça de guerra e começaram a surgir os talibans.

Entre 1.996-2.002, foi o pior período, sem liberdades individuais.

Após o “11 de setembro” o presidente George W. Bush, sem autorização da ONU, decidiu invadir e bombardear regiões do Afeganistão, onde supostamente Osama Bin Laden, terrorista com acesso à educação formal que anteriormente a CIA havia auxiliado, estaria.

Nunca se encontrou o cadáver.

O país está em reconstrução com milhões de famintos e refugiados no Irã e Paquistão.
Assim como em todos os países do mundo, há aqueles que cresceram financeiramente e socialmente durante o regime menos democrático. Alguns colaboram de maneira direta, outros foram beneficiados de maneira indireta: um concorrente foi silenciado pelas forças opressoras.

Assim como em todos os países do mundo, estas pessoas que foram beneficiadas sentem saudades do poder e dos benefícios. Elas acreditam que suas vidas eram melhores naquele momento e que certamente seria melhor se aqueles mesmos dirigentes estivessem no poder.

Estas pessoas são minoria, mas falam para outras também insatisfeitas, que repetem a história, espalhando uma noção de que as coisas eram melhores.

Mesmo que a minoria não torne-se maioria; entre pessoas influentes e que estão acostumadas a decidirem o destino alheio, a simpatia por épocas menos democráticas se faz presente.

Apenas aguarda-se a oportunidade.

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