Black Hammer (v 3): Age of doom Part I [2019]

Por algum motivo insólito Jeff Lemire (texto) cancelou a série "Black Hammer" e iniciou a série "Black Hammer: Age of doom". Este encadernado, numerado na borda com o "3", reúne as edições 1 a 5 desta segunda série.

[A trama]
Lucy, a filha de Black Hammer, é agora a nova Black Hammer e ela tem respostas para onde estão os justiceiros transportados com seu pai. Mas alguém não quer que a verdade venha à tona e irá levar Lucy em sua viagem por distintas paragens!

[Comentários]
A edição tem cerca de 120 páginas e novamente flui bem, mas o ritmo começa a cair um pouco.

Lemire insere ou reforça a presença de personagens daquele universo, uma estratégia para permitir o lançamento de séries derivadas (Sherlock Frankestein & The Legion of Evil; Doctor Star & The Kingdom of Lost Tomorrows) e o universo continua a crescer com The Quantum Age, Cthullu Girl e Black Hammer '45.

Um mal comum no atual momento dos quadrinhos norte-americanos é que a série poderia perfeitamente ser publicada no formato de graphic novel com (talvez) 60 páginas e encontraria um tamanho ideal para não esticar demais a história.

A função deste volume é dar tempo para que Lucy (re)descubra quem traiu os heróis, algo que já desconfiávamos desde o volume 2 [Veja aqui review do volume 1]. Apenas fica a dúvida sobre o porquê, já que apenas o equilíbrio de forças não me parece um bom motivo.

Lemire constrói bons momentos como quando Lucy navega entre dimensões na "Cabin of Horrors" da Madame Dragonfly ou quando a heroína encontra com um contador de história e sua excêntrica família, cujos nomes lembram o universo dos editores de livros. Fica claro, porém, a sensação de que poderia ter tomado menos páginas.

Dean Ormston - que não é o artista das séries derivadas - continua a entregar um trabalho competente e bem acabado, capz de ir da ficção científica para o terror/mistério com facilidade.

No geral mais um bom momento para a série, mas é um volume de "meio", que necessita de pré conhecimento para se importar com o quê está sendo narrado ali.


















Black Hammer (volume 3): Age of doom, part I
ISBN 978-1-50670-389-3
Dark Horse
janeiro de 2019

Um #Shazam!, três visões!

Neste fim de semana furei a fila de leituras e resolvi ler um material do Capitão Marvel da DC Comics, atualmente conhecido como Shazam. Li três histórias de três continuidades distintas. Seguem minhas impressões.


O Poder de Shazam! → 22 anos depois da publicação nacional (dez/1996) a graphic novel de Jerry Ordway continua excelente. Narra em flashback como expedição arqueológico dos pais de Billy Batson traçam o destino deles, do menino e de Teth Adam, assim como do empresário Silvana, que financiou a expedição mas queria lucros maiores. No presente o menino descobre o Mago e ao pronunciar o nome do mago (Shazam!) se torna um campeão da justiça e de imediato enfrenta a ameaça do Adão Negro, um campeão do Mago que se tornou maligno e que reencarna em um descendente.

Desenhada e pintada por Ordway a edição é permeada por um tom de nostalgia mas com uma construção narrativa que prende a atenção. Gerou uma série regular também muito boa que foi parcialmente publicada no Brasil.

Convergência: Shazam, Homem-Borracha & Os Combatentes da Liberdade → Em fevereiro de 2016 a Panini publicou a saga “Convergência”, em geral tola. Mas trouxe várias edições especiais interessantes. Aqui Jeff Parker e Evan Shaner conseguem minimamente construir uma aventura dentro da continuidade da série dos anos 1970, apesar da constante bobagem que é “Convergência”: terras alternativas se enfrentando. O Shazam dos anos 1970 enfrenta o Batman da Era Vitoriana (Gotham by Gaslight) e realmente os autores conseguem colocar Silvana e Átomo como vilões pitorescos e críveis, além de usar bem os vilões do herói.

É divertido como curiosidade! Não é uma história do Capitão Marvel/Shazam mas uma aventura do Universo DC em mais uma saga que conta mais uma ameaça ao seu Multiverso. Apesar disso, Parker e Shaner usam bem os elementos, a Família Marvel tem protagonismo e o traço é adequado. Para fãs... mas é divertido!

Shazam e a Sociedade dos Monstros → Escrito e desenhado por Jeff Smith (Bone), publicado em 2015 pela Panini e reimpresso agora em 2019 é dirigido ao público infantil, ou talvez infanto-juvenil. A série é autocontida e cria mais uma continuidade para o campeão do Mago. Mesmas ideias básicas gerais: Billy Batson é um orfão que vive nas ruas e se torna o escolhido do Mago para usar os poderes místicos para defender a justiça. Aqui é centrado no enfrentamento com gigantescos robôs alienígenas, um Silvana com influência política e uma irmã (Mary Marvel) que não se torna uma adolescente, mas uma menina com poderes equivalentes – e temperamento de menina, claro.

Esperava mais do Smith, especialmente por causa de Bone e do que ele representa. A história não é fluida e há elementos que parecem ideias abandonadas. A ideia de que o Capitão Marvel é uma consciência separada e não um Billy crescido não me pareceu adequada. Sei que o projeto teve problemas na DC – quem não tem? - mas de longe é a versão mais fraca do personagem, perdendo até para a bobagem que é Convergência, mas que consegue contar uma aventura estruturada. Os traços do Smith são bons, mas sozinhos não sustentam a aventura.

São três opções para ler histórias de origens de Shazam e conhecer um pouco o personagem.

Mudança no formato das tiras de Príncipe Valente

Tira de Prince Valiant de 24/03/2019

Enquanto a publicação de uma série de 80 encadernados da série de tiras dominicais de “Príncipe Valente” se torna realidade pela Editora Planeta DeAgostini em abril de 2019 – levando o podcast Os Confins do Universo a fazer um excelente episódio (aqui), em 7 de abril de 2019 aconteceu o inimaginável!

A prancha dominical que há décadas é no tamanho de meia página de jornal com 3 linhas de quadros, alterou o formato para uma tira em formato horizontal, com apenas 2 linhas diminuindo assim uma linha em relação ao formato apresentado até 31/03/2019.

Algumas propriedades da King Features não tem material inédito há anos (Flash Gordon) e a mudança em um material tão belo quanto Princípe Valente deve significar uma reestruturação da série para um formato mais comercial. 

Lamentável!





Tira de Prince Valiant de 7/04/2019



Neil Gaiman, Sandman e a nova edição da Panini (I)

Neil Gaiman é um autor de fantasia inglês.

Ele começou sua carreira cobrindo a cena musical. É dele uma biografia do Duran Duran de 1987. Em 1987 ele substituiu Alan Moore em Miracleman e em 1988 chegou na DC Comics. Fez Orquídea Negra e algumas histórias soltas.

A partir de 1989 ele criou e escreveu Sandman, uma série de fantasia dentro do Universo DC. A série durou 75 números (mas tem uma edição extra chamada "Sandman Special"). Além de Sandman Gaiman escreveu a série inicial de Os livros da magia que se tornou uma longa mensal e influenciou toda a produção de quadrinhos de fantasia da editora.

Desde antes de encerrar, mas especialmente depois, Sandman está sendo reimpressa. Geralmente as 76 edições são divididas em 12 arcos, que são reunidos em 10 encadernados – dois encadernados reúnem 2 arcos de histórias curtas. Além desde formato de encadernados, a DC Comics também divide a série em 2 ou 3 encadernados no formato OMNIBUS ou Absolute.

No Brasil Sandman foi publicado pela Globo a partir de 1990 e depois em uma parceria entre Globo/Devir Livraria. Usando sobras de edições a Globo publicou encadernados de alguns arcos. A Brainstore, editora mais vinculada a materiais adultos, reiniciou a publicação de Sandman em forma mensal. A partir dos anos 2000 a Conrad publicou, em capa dura, uma série de 10 encadernados de Sandman.

No meio dos anos 2000 a Pixel Editora assumiu durante dois anos a publicação de material Vertigo (o selo da DC Comics ao qual Sandman está vinculado) no Brasil. E reiniciou a publicação dos encadernados, agora em capa cartão. 

Quando assumiu a publicação exclusiva de todo o material DC no Brasil, a Panini decidiu publicar Sandman no formato Absolute, dividindo a edição original em dois volumes. Com a publicação de diversas histórias comemorativas desde quando a edição finalizou em 1995 esta série tem 5 volumes, 4 que cobrem a série original e 1 para as histórias póstumas.

Devaneio, segundo o Dicio Online.
Jotapê Martins é um dos mais conhecidos tradutores de quadrinhos no Brasil. Quando traduziu a série para a Conrad sugeriu que o personagem principal de Sandman Sonho (Dream) tivesse seu nome alterado algumas vezes para “Devaneio” de modo a sugerir a identidade dos sete Perpétuos, “irmãos” de Sonho e todos com nome iniciado com “D” em inglês, já que ao traduzir para o português “Sonho” (Dream) e “Morte” (Death) não havia uma maneira para que o leitor compreendesse plenamente a ideia. Os editores da Conrad negaram a ideia, mas anos depois o tradutor conseguiu que os editores da Panini aceitassem e, em alguns momentos, personagens se referem a Sandman como “Devaneio”, quando em inglês falam “Sonho” - o personagem é a personificação física do Sonho e do Sonhar.

Em março de 2019 a Panini publica uma nova série em encadernados de capa cartão de Sandman no Brasil. Acessível o primeiro volume foi distribuído no início da segunda quinzena de março às bancas (R$35,00) e trouxe o arco “Prelúdio & Noturnos” com a capa da edição comemorativa de 30 anos.

Infelizmente além do uso da “Devaneio” em alguns momento (em frases como “Devaneio, o Sonho...” tomando o cuidado para não substituir totalmente a tradução anterior, acrescentando assim a nova designação) a edição trouxe erros grosseiros de uso de arquivos digitais. Acostumados ao tamanho maior da coleção Absolute, que serviu como base para esta nova coleção, os editores da Panini não se atentaram que alguns balões de texto ficaram mal diagramados – ou até vazios!

Nas redes sociais, que tornam todos acessíveis mundialmente, o autor Neil Gaiman disse que se decepcionou com a edição. É a primeira vez que um autor se refere a uma edição brasileira em décadas e não é para elogiar. Gaiman além de escritor de quadrinhos bastante conhecido se tornou uma fonte adequada para séries de TV que adaptam seus trabalhos originais. Neste momento o serviço de streaming Amazon Prime está em campanha de divulgação de "Belas maldições" (baseado no livro de Gaiman & Terry Pratchet) além de estar exibindo a segunda temporada da série do canal Starz "Deuses americanos" (baseado em livro de Gaiman, sucesso de crítica e público).

Até hoje (terça, 26/03, 9:30) a Panini não se pronunciou sobre o fato.

O mundo de Quatuorian, volume 1

O mundo de Quatuorian, volume 1
O mundo de Quatuorian, vol 1: Cheiro de tempestade [2017]
Cristina Pezel
ISBN 978-85-67218-18-2
Mundo Uno Editora, 2017

A carioca Cristina Pezel consegue entrar em uma seara por demais conhecida - a jornada do herói - e construir um universo fantástico digno e interessante.

A trama é simples e o desenrolar adequado ao tema. Teriva, Vinich e Julenis são adolescentes em Quatuorian, onde em determinada idade manifestam poderes fantásticos e seguem para um treinamento que os tornará adultos e responsáveis. Teriva no momento de seu nascimento, teve seu pai assassinado por Vorten em um duelo e se vê privado de seuas terras e bens, criado pelo pai de Vinich, a quem tem por irmão.

No início da adolescência eles, juntos com dezenas de jovens de vários reinos, rumam para a Estação Gnária onde aprendem a controlar seus poderes e são apresentados a parte dos mistérios e profecias daquele mundo.

Em paralelo Vorten, desejoso de consolidar sua posição de podre, não abre mão de associações escusas com criaturas místicas e seres abissais, e se torna um vilão crível por sua sede de poder e atos malignos.

Pezel constrói um mundo fantástico perfeito para adolescentes em primeiro contato com a fantasia: centrado em três adolescentes, seus conflitos e paixões e  capítulos curtos, geralmente de 4 a 5 páginas facilitando a leitura para os iniciantes. 

Para leitores antigos a jornada do herói e seu treinamento em uma escola distante não é novidade, mas a escritora consegue embalar a ideia com uma mitologia consistente e estabelecendo um cenário fantástico que perdura à leitura, além de raças e animais novos.

A versão a quem tive contato, dividida em dois volumes é o relançamento da obra de 2016 com mais conteúdo. Não posso opinar sobre o texto anterior, mas este me agradou bastante. É uma leitura deliciosa e rápida, além de muito aconselhável para o primeiro contato dos leitores com a literatura fantástica. Aconselho a todos, mesmo o experiente no tema.

Perry Rhodan 4: O crepúsculo dos deuses

Autor: Clark Darlton


A trama: Crest finalmente se recupera da leucemia e decide passar à Rhodan e Bell o conhecimento arcônida, tornando-os pessoas capazes de impor sua vontade à terceiros.


As potências preparam dois ataques distintos à abóbada, um é subterrâneo e outro e a preparação de um a agente para se infiltrar na abóboda.

Apenas o primeiro plano é definitivamente posto em prática no volume, mas facilmente derrotado visto que Rhodan tem a simpatia de agentes das potências.


Surgem os primeiros mutantes, quase todos frutos de Hiroshima e de exposição de seus pais à radiação. Aqui surgem um telepata (John Marshall) e um teletransportador (Tako Kakuta) simpáticos à causa de Rhodan e seus companheiros. 
É um volume divertido, ainda que uma clara preparação do cenário para os eventos que se seguiriam.

Perry Rhodan
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5: Alarma galáctico
 

Shatted Image [1996]

Barbara Kesel, autora de quadrinhos ligada à fantasia, escritora de uma boa fase de Rapina & Columba, escreveu junto com Kurt Busiek a série Shattered Image onde uma entidade ameaça o continuum da editora Image Comics e como resultado surgem seis mundos!

Naquele momento (1996) a Image passava por problemas, em especial pela saída de Rob Liefeld. Jim Lee que havia trabalhando para a Marvel junto com Liefeld não teria problemas maiores e mesmo fazendo a série WildCATS/X-Men em 1997, vendeu seu estúdio para a DC Comics em 1998.

Shattered Image foi uma maneira de anular na continuidade da editora a participação dos personagens de Liefeld – um personagem dele havia sido responsável pela morte do Spawn, algo revisto.

Publicado em 4 números, com arte do iniciante Tony Daniel Shattered Image lembra Crise nas Infinitas Terras na forma e no conteúdo e sua maior curiosidade é a presença de um certo homem-morcego conservando com o Spawn e convidando-o para ir para seu mundo. Spawn diz se lembrar dele, mas a memória não é nítida e a imagem apenas sugere o personagem.

Não vale a pena gastar seu rico dinheirinho nisto apesar da competente Barbara e do mais que capacitado Busiek.







Black Hammer vai além! (Até quando?)

Ontem a Dark Horse anunciou que haverá um encontro entre os personagens da série Black Hammer e a Liga da Justiça. Será em cinco partes e escrito pelo criador da série Black Hammer, Jeff Lemire.

Lemire tem uma voracidade em fazer derivados de Black Hammer! Fez Doutor Starr, Quantum Age, Garota Cthulu, Black Hammer ‘45 e reiniciou a série principal em Black Hammer: The age of doom. Está alimentando seus fãs que estão consumindo as obras e as achando boas ou divertidas. Doutor Starr é considerado uma pequena obra prima. Quantum Age tem um grande valor sentimental para mim porque é uma releitura da Legião dos Super-Heróis, grupo pelo qual eu tenho grande afeição. Garota Cthulu é “só” divertido – mas em uma época em que os quadrinhos esquecem de sê-lo.

Isto me lembra Astro City de Kurt Busiek. Busiek criou em 1993 uma série autoral publicada pela Image Comics, depois pela WildStorm (DC) e depois pela Vertigo (DC) onde se explorava os arquétipos dos heróis em uma cidade/universo em que eles são adorados. Diferente de Lemire, Busiek resistiu à tentação de derivados. Sim ele publicou especiais, mas eram feitos quando a série principal estava parada e pela mesma equipe criativa. Durante todo o período da série apenas um arco, relativamente recente teve um artista diferente de Brent Anderson.

Mesmo quanto havia rumores fortes de uma série de TV ou filme, Busiek resistiu. Mesmo quando o hiato entre as edições ia ao limite, Busiek resistiu. Lemire, não. Além de fazer uma dezena de séries regulares entre autorais e não autorais o autor não se fez de rogado: paralisou a solução da trama principal de sua série e começou a produzir derivados, jogando a solução da história sempre para a frente.

Isto não diminui a qualidade do que Lemire faz, mas é um indicativo que suas ideias podem se esgotar mais rapidamente.

A ver!

Perry Rhdoan 1802: Os filhos adotivos do Sol, Hubert Haensel

[A trama]
Cistolo Khan, comissário da LTL, tem a difícil missão de organizar todo o acesso a Trokan, rodeado de dezenas de jornalistas, assim como dar acesso ao auto exilado por 48 anos Perry Rhodan e sua nave Gilgamesh que pede autorização para entrar no Sistema Solar.

Mas o ousado jornalista Gloom Bechner, acompanhado por sua equipe desobedece a ordem do comissário e pousam em Trokan e tem contato com os herreachs cujo mundo passa por profundas mudanças.

[Opinião]
O episódio constrói uma tensão legítima sobre a relação de Rhodan com Khan, e as responsabilidades do último. Khan realmente entende as boas intensões do imortal, mas por uma questão política não pode dar acesso a Rhodan baseado apenas em sua palavra, sem fatos.

O restante do episódio é basicamente a aterrissagem em Trokan das equipes de Khan e de Bechner e a reação da população local, além surpresa do primeiro contato.


Perry Rhodan
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Ciclo 27: Os Tolkandenses
Episódio 2
1802
Os filhos adotivos do Sol

Ciclo 27: Os Tolkandenses
Episódio 3
1803
O gigante Schimbaa


Ciclo 27: Os Tolkandenses
Episódio 4


A vida da Capitã Marvel [Panini, fev/2019]

[A trama]
Ao retornar à casa de sua família, Carol Danvers vê-se obrigada a ficar mais tempo devido a um acidente com seu irmão. Ao mesmo tempo descobre um segredo de seu passado e contas antigas serão cobradas.

[Opinião]
Salvo o fato de que a última parte da minissérie coletada neste encadernado foi publicado em fevereiro de 2019 nos EUA (cover date), tornando a publicação quase simultânea, não há curiosidade maior na série. 

Ela serve para recontar a vida de Carol em seu lar e acrescentar um retcon para a personagem. Retcon é a abreviatura em inglês de "continuidade retroativa" que é a inserção de detalhes no passado de um personagem ou de um universo, de modo a que sempre estivessem ali. O mais famoso caso de continuidade retroativa é o Superboy, mas há série mais recentes que abordavam o tema como The Invaders de Roy Thomas, The All-Star Squadron de Roy Thomas, The Untold Tales of Spider-Man de Kurt Busiek e X-Men: Hidden Years de John Byrne. 

Leitores mais antigos irão estranhar que o conflito entre Carol Danvers e seu pai, tão presente na série Ms. Marvel [1977] foi justificado pelo retcon. Originalmente Carol tinha mágoas do pai que não quis lhe pagar o ensino superior e fugiu de casa. O fato está ali, mas dessa vez há alguma razão do pai. Diminuindo assim o fato original que era movido pelo preconceito.

Ofende apenas os leitores antigos, mas como o foco é o público que irá conhecer a heroína no filme então "está tudo bem". 

Escrita por Margaret Stohl e com arte de Marguerite Sauvage (passado) e Carlos Pacheco/Rafael Fonteriz (presente), o encadernado em 124 páginas, capa cartão e preço de R$ 19,90. Panini Comics, fev de 2019.

Perry Rhodan 3: A abóbada energética

[A trama]
Perry Rhodan e Reginald Bell estão sob a abóbada energética mantida pelos artefatos alienígenas. A abóbada está sob intensa artilharia pesada e parece que dá sinais de falha próxima, do qual os ex-major não tem certeza pois não conhece a tecnologia. Ao mesmo tempo Thora, a alienígena que ficou na base lunar, pressiona para que restaurem a saúde de Crest, com leucemia – no episódio anterior a equipe pediu auxílio a um médico australiano.

Para coroar a tensão as potências estabelecidas também decidem enviar uma nova missão para destruir a base lunar!

[Comentários]
É realmente um episódio de urgências. Há realmente uma tensão verdadeira! Enquanto a abóbada energética está sendo alvejada é possível “ouvir” o som da artilharia e a tensão que percorre Rhodan em saber que seu plano pode falhar. Mesmo com a simpatia de alguns agentes das potências há uma dúvida razoável de como isto ocorrerá.

É um excelente episódio e com um suspense verdadeiro que o mantém interessado na leitura.


Perry Rhodan
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2:



1º ciclo:
A 3ª Potência
Episódio 2
Clark Dalton
3: A Abóboda energética

1º ciclo:
A 3ª Potência
Episódio 3
K. H. Scheer

1º ciclo:
A 3ª Potência
Episódio 4
Clark Dalton


Perry Rhodan 2: A Terceira Potência, Clark Darlton


O pouso da Stardust no Deserto de Gobi chama a atenção das forças políticas existentes, que creem em deserção da equipe de Rhodan ou em um meticuloso esquema de espionagem. Em vários momentos eles são obrigados a fazer resistência física, usar a tecnologia dos arcônidas e deixar claro a pureza dos princípios de Rhodan.

Ao mesmo tempo um dos membros vai em busca da cura para a leucemia que acomete Crest e o ritmo da série é estabelecido: há cortes de passagem de tempo, sem que seja meticulosamente detalhado o quê ocorreu com alguns personagens enquanto a ação se concentra em um específico.

Quase sessenta anos após sua publicação original, “A Terceira Potência” é um excelente conto ambientado no período da Guerra Fria e que traz reflexões importantes sobre os limites do poder e o que fariam as forças dominantes caso houvesse algo que realmente desequilibrasse os poderes constituídos. Aqui as potência iniciam o lançamento de mísseis – cujas ogivas são desativadas pela ação de tecnologia dos arcônidas.

Envelheceu bem, ainda que seja mais saboroso para os fãs de sci-fi e do período.


Perry Rhodan
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2: A 3ª Potência

1º ciclo:
A 3ª Potência, episódio 2
Clark Dalton
1º ciclo:
A 3ª Potência, episódio3
K. H. Scheer


Star Trek, Discovery [2x06]: The Sounds of Thunder

Star Trek, Discovery não é exatamente um boa série. Cheia de premissas legais, peca em fazer um continuidade retroativa [retcon] quando deveria ser no presente. Explico: as aventuras da série se passam no passado, antes do primeiro episódio de “Star Trek” com a tripulação de Kirk, Spock e McCoy, sendo contemporânea ao comandante anterior da Enterprise, o Capitão Pike.

Com acertos e erros – muitos de ambos – a série criou Michael Bunham uma humana que é meia-irmã de Spock e há então uma cadeia complexa de eventos, alguns bem questionáveis. Mas a segunda temporada entrega ao menos dois episódios no velho estilo da franquia. Um é “New Eden” (2x02) e o outro é “The sounds of thunder” (2x06).

Ao longo da série descobrimos que o Comandante Saru é membro de uma raça chamada de kelpianos que possui um predador natural em seu planeta. Saru 20 anos atrás fez contato com a Frota e fugiu do planeta, pedindo asilo. Os kelpianos tem gânglios que evidenciam ameaças e são uma raça reservada, facilmente classificada como “covardes”.

Em determinada estágio da vida os kelpianos passam pelo Vahar'ai e são sacrificados pela raça dominante. Há um componente sacrificial e religioso. E tudo se altera quando Saru chega ao estágio do Vahar'ai (episódio 2x04 “An Obol for Charon”) e descobre que há uma sobrevida, que não é necessário o sacrifício.

Em “The Sounds of Thunder” rastreando uma forma de vida que a Discovery está perseguindo nesta temporada, Saru retorna ao seu planeta natal e se vê diante da possibilidade de revelar ao seu povo que aquilo que eles acreditam é uma farsa!

Delicadamente Discovery entrega o episódio mais político da série, sem tocar em uma gota de eleições ou partidos. Aqui vida evidente a política real do controle de informações e como meias verdades são manipuladas pela tornaram um povo mansos carneiros – tema muito comum aqui no blog.

É uma metáfora para religiões que pregam o auto sacrifício em nome do bem comum e passa tão sutilmente que o expectador desatento nem percebe. Interessantíssimo!

Mais um episódio que mostra que a série, ainda que tenha muitos erros, não é uma perda total!

Perry Rhodan 1801: Os Herreachs, Robert Feldhoff

Trokan apareceu há algum tempo no céu e ocupou o espaço físico de Marte, o 4º planeta do sistema solar. Entre 1222-1288 NCG esteve coberto por um campo de aceleração que fez com que o tempo passasse mais rápido para quem estava dentro deste campo na relação de 1:3,7 milhões. 

Neste volume temos uma narrativa do que acontece no planeta, os pontos chaves de sua história e a influência do programa/deus Kummerog sobre sua população, que povoou as histórias do povo herreach com uma profecia sobre seu retorno.

[Opinião]
É basicamente um capítulo para mostrar a história de Trokan e o que aconteceu nos 244 milhões de anos acelerados. Poderia ser um capítulo tedioso, para cumprir a tabela, mas se torna delicioso em função de mostrar de modo crível os processos evolutivos, a manipulação religiosa e o ódio à ciência, tão comum no mundo atual.

Divertido, até mais que o volume 1 da série, a graça está em fazer as relações entre a evolução naquele mundo e o nosso e as limitações que foram impostas à eles. É um volume simples, sem grandes pretensões, daí sua força: A narrativa, por não evocar elementos da série Perry Rhodan, ultrapassa a série, sendo indicado para quaisquer pessoas.


Perry Rhodan
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Ciclo 27: Os Tolkandenses
Episódio 1
1801
Os herreachs


Ciclo 27: Os Tolkandenses
Episódio 2
1802

Ciclo 27: Os Tolkandenses
Episódio 3

Os herreachs em primeiro plano e seu inimigo natural no início do processo evolutivo

Perry Rhodan 1800: Tempo Acelerado, Robert Feldhoff

Em 05 de janeiro de 2019 a SSPG Editora, como resultado de um questionamento feito no ano anterior, inicia a publicação de um ciclo bem à frente dos que estava publicando – ela estava publicado dois ciclos então, um por volta dos números 586 e outro por volta dos números 967. Havia vencido a eleição de fins de 2017 a decisão de saltar para o volume 2000, mas ajustes foram feitos em 2018 e decidiu-se iniciar no volume 1800, que é a porta de entrada para as tramas que alcançarão o volume 2000.

A trama que inicia o Ciclo 27: Os Tolkandenses cobre um período de 66 anos (1222-1288 NCG) em duas frentes. A primeira é o surgimento de um campo acelerado em torno do novo 4º planeta do sistema solar, Trokan. A proporção de tempo é 1:3,7 milhões, ou seja cada 1 minuto fora do campo acelerado é equivalente de 3,7 milhões de minutos. Isto faz com que ao final do volume surja e evolua uma civilização do zero, observada por cientistas que habitam a Terra.

No início da trama em 1222 NCG Perry Rhodan e sua equipe retornam para a Terra, mas são ignorados e distanciados de cargos técnicos ou políticos. 

Após perceber a sua situação de fato, Rhodan decide se exilar e criar “Camelot”, oculto dos políticos. “Camelot” não é explicitado no volume, nem abordado com profundidade. Supõe-se que seja um conglomerado científico, pois ao longo da narrativa vai atraindo cientistas e pesquisadores.

Os lançamentos de SSPG Editora em 05 de janeiro de 2019
No últimos momentos da narrativa, quando finalmente o campo de tempo acelerado se dissipa sobre Trokan, eis que surge Rhodan de seu exílio auto-imposto de 48 anos na nave “Gilgamesh”. E a Terra percebe que Trokan é habitado por uma civilização inteligente.

Impressões: Um livro técnico e político centrado na disputa de poder na LTL e na criação do cenário para transcorrer o ciclo e as tramas futuras da séries. Não há um real protagonismo de Rhodan nos capítulos e se destacam os políticos Gia de Moleon e Cistolo Khan.

As publicações deste 27º ciclo serão mensais.

Perry Rhodan
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1799:

1800
Tempo Acelerado

Ciclo 27: Os Tolkandenses
1801

Ciclo 27: Os Tolkandenses



Hellblazer - ordem de publicação no Brasil


Hellblazer, série de encadernados da Panini

Origens (Jamie Delano):
1 - Hellblazer 1 a 6
2 - Hellblazer 7 a 10/Swamp Thing 76-77
3 - Hellblazer 11 a 17
4 - Hellblazer 18 a 23
5 - Hellbalzer Annual 1/Hellblazer 24 a 27
6 - Hellblazer 28 a 34
7 - Hellblazer 35 a 40; 84; 250/Vertigo Secret Files: Hellblazer 1
8 - The Horrist 1 e 2/ Hellblazer Bad Blood 1 a 4/ Hellblazer 250

Infernal (Garth Ennis):
1 - Hellblazer 41 a 48
2 - Hellblazer 49 a 55
3 - Hellblazer 56 a 61
4 - Hellblazer 62 a 67
5 - Hellblazer 68 a 71/Hellblazer Special 01
6 - Hellblazer 72 a 77
7 - Hellblazer 78 a 83/Hellblazer: Heartland 01
8 - Hellblazer 129 a 133/Vertigo Winter's Edge 2

Demoníaco (Paul Jenkins):
1 - Hellblazer 85 a 90
2 - Hellblazer 91 a 96
3 - Hellblazer 97 a 101
4 - Hellblazer 102 a 107
5 - Hellblazer 108 a 114
6 - Hellblazer 115 a 120
7 - Hellblazer 121 a 128

Assombrado (Warren Ellis):
1 - Hellblazer 134 a 140
2 -

Amaldiçoado (Brian Azzarello):
1 - Hellblazer
2 - Hellblazer
3 - Hellblazer
4 - Hellblazer
5 - Hellblazer


Hellblazer #141 a 159; Pixel Magazine #1; 6; 3; 5; 7 a 20; Brian Azzarelo
Hellblazer #157 a 163 em Hellblazer Congelado; 2009-12; Brian Azzarelo
Hellblazer #164 a 169 em Hellblazer Hightwater; 2010-07; Brian Azzarelo
Hellblazer #170 a 174/Vertigo Secret Files: Hellblazer 1 em Hellblazer Cinzas e Pó na cidade dos anjos; 2010-11; Brian Azzarello

Hellblazer #175 a 215; Vertigo #01 a 38

Hellblazer #216 a 222 em Hellblazer A empatia é o inimigo; 2013-02; Denise Mina
Hellblazer #223 a 228 em Hellblazer A mácula vermelha; 2013-05; Denise Mina

Hellblazer #229; Vertigo #38

Hellblazer #230 a 237 em Hellblazer O passeio; 2015-01; Andy Diggle
Hellblazer #238 a 242 em Hellblazer O mago que ri; 2015-05; Andy Diggle
Hellblazer #243 a 249 em Hellblazer Raízes da Coincidência; 2015-09; Andy Diggle

Hellblazer #246; Vertigo #41
Hellblazer #250; Vertigo 43 (história principal); Vertigo 42
Hellblazer #251 a 260; Vertigo #44 a 51

Hellblazer #261 a 266 em Hellblazer Índia; 2014-04; Peter Milligan
Hellblazer #267 a 275 em Hellblazer Cravos sangrentos; 2014-08; Peter Milligan
Hellblazer #276 a 282 em Hellblazer Dores fantasmas; 2014-09; Peter Milligan
Hellblazer #283 a 291 em Hellblazer O capote do diabo; 2016-02; Peter Milligan
Hellblazer #292 a 297 em Hellblazer A maldição dos Constantinte; 2016-06; Peter Milligan
Hellblazer Annual 2011/Hellblazer #298 a 300 em Hellblazer Morte e cigarros; 2016-08; Peter Milligan

Minisséries ou especiais:
Hellblazer A cidade dos demônios - City of demons 1 a 5/Vertigo Winter's Edge 3
Hellblazer Pandemônio; 2011-03; J. Delano da série Hellblazer Pandemonium
Hellblazer Passagens Sombrians; 2011-11; Ian Rankin da série Hellblazer Dark Entries (formato pequeno, em preto e branco)




FGTS, 50 anos!

Conhecer a história e o contexto de como as coisas se dão é importante. Quando vemos a grita por menos impostos um dos alvos é o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Tornado lei em 13 de setembro de 1966 – portanto durante a ditadura militar – a lei previa que o empregador fizesse um depósito compulsório no valor de 8% do salário para o empregado em uma conta administrada atualmente pela Caixa Econômica Federal (CEF) e a qual o empregado só teria acesso em caso de demissão sem justa causa e outra dezena de situações.

A nova legislação, Lei 5.107 de 13 de setembro de 1.966, entrou em vigor para substituir um direito anterior: estabilidade decenal. Em resumo o empregado após dez anos de serviço tinha estabilidade e só poderia ser demitido por justa causa. Alguns argumentam que havia um trabalho constante dos empregadores para demitir o empregado antes de ele ter direito à estabilidade (até 9 anos, por exemplo).

No cenário até 1966 caso o patrão decidisse demitir um empregado ele pagaria uma indenização de um salário por ano trabalhado ou dois por ano trabalho, caso fosse após a conquista da estabilidade.

A soma das doze parcelas mensais de 8% (12 x 8% = 96%) mais o juro acumulado ao ano criava um depósito que se assemelhava em muito ao valor do salário. Benefícios como férias e o posterior 13º salário também contribuem com o fundo, fazendo com que em um ano o depósito ultrapasse o salário (13 x 8% = 104% ou, em caso de férias, 13,3 x 8% = 106,4%).

O clima para a aprovação da alteração foi tenso. Em 1.966 os generais ainda queriam manter a falsa impressão de normalidade e tentaram passar o Projeto de Lei via Congresso, sem sucesso. Nenhum deputado gostaria da responsabilidade de ter auxiliado a encerrar a estabilidade. O Projeto foi aprovado via Ato Institucional 2 (1965) que previa a promulgação automática de projetos do executivo que não fossem votados em trinta dias.

A publicidade vinculou o FGTS à ideia do financiamento para a casa própria, além de trabalhar no imaginário, já que a indenização só serviria para casos de demissão. Com o FGTS, em caso de aposentadoria, o empregado também tem direito ao saque. Ao final a ideia também conquistou aos empregadores, pois desta forma, a indenização seria paga em parcelas e o empregador não sentiria um peso ao demitir funcionários.

Houve algumas alterações e atualmente em caso de demissão sem justa causa o empregador é obrigado a pagar 50% do valor da conta, sendo 40% para o empregado e 10% para cobrir um rombo nas contas do FGTS (início dos anos 2000). Curiosamente quando o rombo foi coberto (cerca de 2015) o governo praticamente institucionalizou a cobrança adicional. A partir de 26/09/2018 parte do valor do FGTS poderá ser dado em garantia para financiamentos de empréstimos na CEF com uma taxa anunciada de 3,5% a.m.

Binti, Nnedi Okarafor [2015]

Talvez uma das frases mais legais da ficção científica atual seja “Eu sou Binti Ekeopara Zuzu Dambu Kaipka da Namíbia”. Ela carrega um peso de autoconhecimento único e apresenta uma pessoa especial. Binti, a menina que é a primeira de seu povo a ir mais longe que suas fronteiras não é única! Tramas de alunos em viagem para a escola onde aprenderão conhecimentos avançados começa bem antes de Ursula Le Guin (O feiticeiro de Terramar, 1968) e vai além, chegando e atravessando JK Rowling. A partida de casa e os desafios são metáforas para o fim da infância, a chegada da adolescência, as responsabilidades e, em algumas séries o início da vida adulta. Mas Binti é especial!

Binti (ISBN 978-0-7653-8446-1, Tor Books, 2015) a novella faz parte de uma corrente da ficção científica chamada “africanfuturism” ou ainda “afrofuturism” que se trata de utilizar a cultura, tradição, cosmologias e estéticas africanas na construção de narrativas próprias, desvinculadas dos modelos ocidentais. Nnedi Okarafor, a autora, não é a única a fazer uso disto – e nem a primeira em que tive contato, mas seu diferencial é a sensibilidade com que trata o tema.

Na trama, Binti, membro da minoria étnica dos himba, está em um conflito. Ela foi convidada para estudar na universidade Oomza Uni em um planeta distante e aparentemente uma referência em ensino. Com grandes habilidades matemática a jovem é uma “harmonizadora” e seria a substituta do pai na loja em que negocia astrolábios. Além disso seu destino está traçado e seu povo nunca deixou seu lugar de origem.

Binti decide fugir e rumar para Oomza Uni, mas no caminho cruzará com os “Medusa” que estiveram em guerra com os khoush – a maioria étnica de seu local de origem. Descobrirá também um uso especial para o otjize – uma pasta que mistura argila, nata de leite, flores e pigmentos e é utilizado com fins estéticos e identitários pelo povo himba, cuja versão da série é baseada em uma etnia que habita a Namíbia – e para um artefato ancestral que encontrou anos antes – o edan.

Além da ação própria do plot há uma genuína sensibilidade em tratar os personagens, suas particularidades, suas visões de mundo e toda sua herança cultural. A autora foge das coisas fáceis e armadilhas de roteiro, não deixando de fazer todas as críticas possíveis, mas apenas de outra forma com uma nova estética e para uma nova audiência.

Interessantíssimo!

Nota: 9/10.

Caliban’s War [The Expanse series, Livro 2], James S. A. Corey

Os escritores Daniel Abraham e Ty Franck que utilizam o pseudônimo James S. A. Corey fazem algo raro no meio: entregam o que prometem! Seja no conteúdo, seja no volume, desde 2.011 Corey tem entregue aos leitores anualmente cerca de 550 páginas de texto passados no universo ficcional conhecido como a Expansão – mas para efeitos midiáticos usaremos a versão em inglês “The Expanse”.

Neste universo o ser humano colonizou o Sistema Solar. Lua e Marte são habitados. Marte tem governo próprio, bastante militarizado, que se indispõe contra o governo terrestre. O cinturão de asteroides também é habitado, mas por uma classe de trabalhadores chamada cinturinos [belters, no original]. Apesar de relegados a uma condição inferior, provocada também por posições racistas em relação às alterações físicas na exposição à gravidade zero e radiação espacial, cabe aos belters e as classes trabalhadoras manter a produção de alimentos e de água potável para alimentar os habitantes dos planetas internos. Devo confessar que li críticas sobre a viabilidade financeira de tal empreendimento, mas isto caiu em minha “suspensão da descrença” e eu posso viver com isto.

Quem leu o primeiro romance da série, Leviatã desperta (Leviatan Wakes) ou assistiu a primeira temporada da série de TV que adapta a trama sabe que os autores criam personagens cativantes, ainda eu que prefira outros narradores de ponto de vista que não James Holden; e os autores me presenteiam com três novos:
Chrisjen Avasarala – executiva das Nações Unidas, Avasarala é perfeita! Energética, política, autoritária e uma verdadeira “vovozona” com uma boca suja e um coração enorme! Seus capítulos são de longe os melhores e sua disposição de apostar alto e colocar seu rabo na reta chama a atenção. É a mesma personagem da série de TV essencialmente, com a diferença de que nos livros só surge a partir do segundo volume. Em um lance arriscado para entender um acidente em Ganymede, Chrisjen contrata para seu escritório a sargento marciana renegada Bobbie Drapper algo que as jogará em uma missão diplomática para a lua distante!
Prax Meng – Botânico que trabalha em Ganymede, Prax está em busca de sua filha sequestrada durante o início dos conflitos. O seu caminho se cruza com o da pessoal da Roccinante que assumem para si a missão de encontrar e resgatar Mei.
Bobbie Drapper – Em uma missão em Ganymede Roberta Drapper tem seu esquadrão estraçalhado por um monstro que anda na superfície da lua de Júpiter sem armadura. Bobbie sobrevive, mas descobre-se responsabilizada por atacar o esquadrão terrestre que patrulhava a fronteira junto seu seu e que seu governo a jogou aos leões! Irada, Bobbie se desliga das forças marcianas e passa a trabalhar para a política terrestre Chrisjen Avasarala, união que as levará a encontrar a tripulação da Rocci.

Assim que há o ataque em Ganymede, no primeiro capítulo do livro, inicia-se um conflito acima da lua de Jupiter e a OPA envia a Rocci para auxiliar no resgate de civis. Holden está transtornado pela culpa do conflito anterior e ao descobrir evidências de que um monstro transformado pela protomolécula tem envolvimento no início do conflito, isto se acirra ainda mais, já que foi ele que entregou a protomolécula para Fred Johnson, chefe da OPA. A lenta transformação de Holden em alguém frio e violento, com uma enorme carga de culpa para expiar, cria uma tensão entre ele e Naomi Nagata, parceira na Rocci. De resto a tripulação original da Rocci, que a Holden e Naomi somam-se Amos e Alex, continua sendo um time divertido e bastante azeitado. Amos é o típico “tio” violento e explosivo, cuja personagem é responsável por dezenas de bons momentos; enquanto Alex continua sendo apenas o piloto. A maior informação sobre o piloto é dada por Avasarala e não passa de linha e meia de texto. Com a chegada de Bobbie Draper e Chrisjen na Rocci (após a metade do livro) o personagem recebe alguma relevância, já que também é marciano, mas nada que o torne realmente interessante. Amos rende um pouco mais, já que imediatamente se sensibiliza pela situação de Prax, o quê deixa relevar várias partes de seu passado, seja em flashbacks, seja em narrativa de relatórios. O personagem cresce, mas ainda é pouco profundo, certamente sendo uma excelente possibilidade para um futuro personagem narrador. Evidentemente não ter um conflito interno sobre o quê faz o simplifica bastante, mas em uma situação extrema será uma oportunidade impar para ver sua versão dos fatos.

Caliban’s War [ISBN 978-0-316-20227-5, Orbit, 2012] é essencialmente um livro de ação, centrado nas ações de time em um cenário de guerra em um cenário maior de sci-fi. É, por definição, um romance de space opera. Os personagens são envolvidos em um conflito menor e passam a tentar impedir que haja um conflito maior, assim como impedir que uma empresa forneça mão de obra para fomentar este conflito maior. Em torno disto, o drama de um pai que perdeu sua filha e a pouca chance em recuperá-la nos faz torcer automaticamente por ele. Se a simplicidade de Holden, com sua ação típica de “vamos divulgar tudo” irrita, parece que os autores tem perfeito conhecimento disto e querem que o personagem seja assim, já que Avasarala o critica abertamente por estas posturas e rouba a cena: pouco após atracar na Rocci é a sub-secretária que está realmente mandando na nave! Mas novamente, como Miller no primeiro romance, o falso antagonismo entre Holden e Avasarala faz com que os personagens se complementem. E o resultado funciona!

Como quase todos os romances atuais, vencer as primeiras 250-300 páginas exige um pouco do leitor, já que os autores estão posicionando seus personagens e os eventos, mas a partir daí tudo funciona muito bem. Eu mesmo venci 120 páginas no último dia de leitura, incapaz de deixar para lá o livro. Por fim, Corey cria uma tensão que se assemelha em tom ao final do primeiro romance, mas conseguem não se repetir. E até o penúltimo capítulo “fecham” a trama, deixando em aberto a continuação apenas no último momento do último capítulo.

Vencer as 598 páginas de Caliban’s War foi importante para mim por dois motivos. O primeiro é que se torna o mais volumoso livro que li em inglês. Para mim o nível de concentração e de energia é maior que eu gasto quando o livro está em português. Segundo, que rompi em parte o preconceito contra dispositivos digitais, pois o li no Kindle (versão iPad, confesso). Já havia lido alguns livros técnicos e da área de administração pública, minha área de formação, mas na ficção eu havia ficado restrito em contos e noveletas, algo curto e geralmente barato.

Mas minha crítica ao equipamento continua: enquanto a proprietário do software de leitura digital (o Kindle pertence à Amazon) tiver possibilidade de alterar e censurar livros depois que estão em meu equipamento eu não me sentirei plenamente à vontade em usar este meio. Há dois itens adicionais: a possibilidade de empréstimo e a possibilidade de revenda, ambas inexistente no momento – ao menos são pouco divulgadas, se existirem – também me afastam de usar intensamente o formato. E é claro, o medo de transformar o livro digital no formato preferencial de distribuição e como isso dará poder à Amazon.

Nota: 8/10.

The Expanse, a série de livros
1
Leviatã Desperta [Leviatan Wakes 02/06/2011, no Brasil Editora Aleph, 2017]
2
Caliban’s War [26/06/2012]
3
Abaddon’s Gate [04/06/2013]
4
Cibola Burn [05/06/2014]
5
Nemesis Games [02/06/2015]
6
Babylon’s Ashes [06/12/2016]
7
Persepolis Rising [05/12/2017]
8
Tiamat’s Wrath [04/12/2018]



The Expanse, contos/novelas
1
The Butcher of Anderson Station [17/10/2011]
2
Gods of Risk [15/09/2012]
3
Beloved of Broken Things [27/11/2012]
4
The Churn [29/04/2014]
5
The Vital Abyss [15/10/2015]
6
Strange Dogs [18/06/2017]