Anno Dracula de Kim Newman
Como nos extravagantes
arrasa quarteirões do cinema atual, parte do impacto de Anno
Dracula perde-se nas páginas iniciais: é um livro com vampiros,
muitos, mas não é um livro de terror ou suspense. Gravita entre um
romance detetivesco de ambientação steampunk com vampiros e
um leve suspense psicológico – bem leve, diga-se de passagem.
Assim como em Do
Inferno de Alan Moore que trata de tema semelhante ao
leitor é ofertado a identidade do assassino da trama, uma versão de
Jack, o estripador para este cenário, mas o que fascina é o
ambiente! Vlad Tepes, o Conde Drácula,
sobreviveu ao seu intercurso com Van Helsing e na Inglaterra,
torna-se Príncipe Consorte da Rainha Vitória. Com a
realeza transformada, ser vampiro torna-se moda e pessoas em cargos
importantes tornam “renascidos nas trevas” de modo a manterem os
cargos ou alcançarem cargos maiores – semelhante
a ser membro de determinado partido para chegar nas posições de
chefia no Brasil dos anos 2000/2010.
Mas a linhagem de
Dracula, enfraquecida, está também disponível através de
prostitutas dispostas a transformar qualquer um ao troco de um xelim.
Com isso grande parte da sociedade inglesa alcança o “beijo
negro”. Com a posição social e o fato de a Rainha ser uma
renascida não há perseguição oficial aos vampiros, ainda que haja
perseguição religiosa silenciosa.
Diante disso surge um
assassino que mata prostitutas vampirizadas em Whitechappel.
Nominado primeiro como Faca de Prata – a prata fere os
vampiros, dificultando a regeneração e pode matar – mas
posteriormente assumindo o nome de Jack, o estripador.
Ao perseguir vampiras,
este Jack atrai a atenção da polícia londrina; do Clube
Diógenes, um clube de cavaleiros que serve a Coroa mas não
concorda com a infestação atual e do primeiro-ministro, um vampiro
chamado Ruthven, que se diverte em difamar Drácula e tenciona
assumir uma posição mais importante. A investigação reúne o
cavaleiro Charles Beauregard, membro do Clube Diógenes, que
esteve envolvido em missões na Índia e está noivo de uma mocinha
que anseia se tornar vampira o mais rápido possível e Geneviève
Dieudonné, uma vampira de outra linhagem, considerada anciã com
seus mais de quatro séculos de renascida, apesar de transformada aos
dezesseis anos.
Parte da graça do
romance, assim como As aventuras da Liga Extraordinária –
outra obra de Alan Moore – está no passeio de personagens
de outras obras, como Inspetor Lestrade, Fu Manchu,
Moriat, os Stoker, Dr. Moreau, Dr. Jekyll
e grande parte do elenco de Drácula, o romance. Ainda assim, apesar
de capítulos curtos e diálogos afiados enquanto põe as peças no
lugar – o quê toma metade do livro – fica-se com a impressão de
uma multidão de transeuntes, sem ninguém para se identificar.
Diante disso fica-se com a convicta impressão que há algo bem maior
por trás dos eventos.
Chama a atenção o fato
de Newman não utilizar Vlad Tepes como personagem central. Quando o
Drácula aparece há realmente impacto! O romance não é sobre o quê
Drácula está fazendo na Inglaterra, mas se sim, sobre o quê a
Inglaterra se tornou depois da chegada do lorde vampiro.
* * *
Publicado originalmente
em 1992, portanto no início do steampunk e antes do
renascimento do vampiro na literatura, Anno Dracula representa
parte do trabalho de qualidade da editora Aleph em editar
material de fantástico e ficção científica – é da editora as
novas traduções de Isaac Asimov.
Espero que o trabalho
esteja dando frutos.
Anno Dracula
(1992), Kim Newman, tradução de Susana Alexandria,
Aleph, 2009. ISBN 978-82-7657-089-9.
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Categories: Aleph Editora, Livros









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