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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014


Como nos extravagantes arrasa quarteirões do cinema atual, parte do impacto de Anno Dracula perde-se nas páginas iniciais: é um livro com vampiros, muitos, mas não é um livro de terror ou suspense. Gravita entre um romance detetivesco de ambientação steampunk com vampiros e um leve suspense psicológico – bem leve, diga-se de passagem.

Assim como em Do Inferno de Alan Moore que trata de tema semelhante ao leitor é ofertado a identidade do assassino da trama, uma versão de Jack, o estripador para este cenário, mas o que fascina é o ambiente! Vlad Tepes, o Conde Drácula, sobreviveu ao seu intercurso com Van Helsing e na Inglaterra, torna-se Príncipe Consorte da Rainha Vitória. Com a realeza transformada, ser vampiro torna-se moda e pessoas em cargos importantes tornam “renascidos nas trevas” de modo a manterem os cargos ou alcançarem cargos maiores – semelhante a ser membro de determinado partido para chegar nas posições de chefia no Brasil dos anos 2000/2010.

Mas a linhagem de Dracula, enfraquecida, está também disponível através de prostitutas dispostas a transformar qualquer um ao troco de um xelim. Com isso grande parte da sociedade inglesa alcança o “beijo negro”. Com a posição social e o fato de a Rainha ser uma renascida não há perseguição oficial aos vampiros, ainda que haja perseguição religiosa silenciosa.

Diante disso surge um assassino que mata prostitutas vampirizadas em Whitechappel. Nominado primeiro como Faca de Prata – a prata fere os vampiros, dificultando a regeneração e pode matar – mas posteriormente assumindo o nome de Jack, o estripador.

Ao perseguir vampiras, este Jack atrai a atenção da polícia londrina; do Clube Diógenes, um clube de cavaleiros que serve a Coroa mas não concorda com a infestação atual e do primeiro-ministro, um vampiro chamado Ruthven, que se diverte em difamar Drácula e tenciona assumir uma posição mais importante. A investigação reúne o cavaleiro Charles Beauregard, membro do Clube Diógenes, que esteve envolvido em missões na Índia e está noivo de uma mocinha que anseia se tornar vampira o mais rápido possível e Geneviève Dieudonné, uma vampira de outra linhagem, considerada anciã com seus mais de quatro séculos de renascida, apesar de transformada aos dezesseis anos.

Parte da graça do romance, assim como As aventuras da Liga Extraordinária – outra obra de Alan Moore – está no passeio de personagens de outras obras, como Inspetor Lestrade, Fu Manchu, Moriat, os Stoker, Dr. Moreau, Dr. Jekyll e grande parte do elenco de Drácula, o romance. Ainda assim, apesar de capítulos curtos e diálogos afiados enquanto põe as peças no lugar – o quê toma metade do livro – fica-se com a impressão de uma multidão de transeuntes, sem ninguém para se identificar. Diante disso fica-se com a convicta impressão que há algo bem maior por trás dos eventos.

Chama a atenção o fato de Newman não utilizar Vlad Tepes como personagem central. Quando o Drácula aparece há realmente impacto! O romance não é sobre o quê Drácula está fazendo na Inglaterra, mas se sim, sobre o quê a Inglaterra se tornou depois da chegada do lorde vampiro.

* * *

Publicado originalmente em 1992, portanto no início do steampunk e antes do renascimento do vampiro na literatura, Anno Dracula representa parte do trabalho de qualidade da editora Aleph em editar material de fantástico e ficção científica – é da editora as novas traduções de Isaac Asimov.

Espero que o trabalho esteja dando frutos.

Anno Dracula (1992), Kim Newman, tradução de Susana Alexandria, Aleph, 2009. ISBN 978-82-7657-089-9.
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