Batman: Descanse em Paz

Para curtir uma boa história em quadrinhos o leitor deve ter um pouco de cultura. Pode parecer presunção, mas os leitores devem concordar que todas as mídias são produzidas para novatos, iniciados e experientes.

Batman: Descanse em Paz (Batman: RIP, no original) é uma dessas histórias que exigem mais do leitor do que a batida fórmula de herói persegue vilão e o derrota ao final de 22 páginas. Criada com genialidade por Grant Morrison e desenhada com alguma eficiência por Tony Daniel e com finais de Sandu Florea o arco transcorreu em Batman #676-681 e foi traduzido pela Panini Comics em Batman #80-84.

Extensa, já que tem seis partes, o arco ganha várias oportunidades para exemplificar a esquizofrenia de Batman, iniciada não somente no arco atual com a administração de drogas na corrente sanguínea do homem-morcego através de cortes com lâminas envenenadas, mas no período de isolamento em que passou no projeto do exército, anos atrás. Durante este período o dr. Simon Hurt implantou a sugestão hipnótica no cérebro de Batman com a frase “Zur-En-Arrh”, que seria usada para desligar o herói num momento específico.


Drogado, Wayne/Batman alucina, enquanto Luva Negra inicia sua cartada final espalhando pela imprensa que Thomas e Martha Wayne seriam esquizofrênicos e drogados e que Bruce, na verdade, seria filho de Alfred. Tudo parte de um plano para desorientar o cruzado encapuzado que venera a imagem de seus pais ao máximo e faz de sua luta contra o crime uma maneira de honrar suas memórias.

Ao mesmo tempo, Luva Negra – que se apresenta em várias passagens como Thomas Wayne, mas também admite não sê-lo – invade a Mansão Wayne com seu “Clube Internacional de Vilões”, uma versão do “Clube Internacional de Heróis” - este último, financiado outrora com John Mayhew. O clube maligno é composto por Le Bossu (“o corcunda”), El Sombrero, Scorpiana, Pierrot Lunaire e Charlie Calígula, vilões dos heróis do Clube de Heróis.

Ao visitar a Mansão Wayne, Gordon percebe que há algo errado e é atacado por armadilhas montadas pelo Luva Negra, mas ao longo do arco Talia e Damian decidem auxiliar na derrota do vilão e de alguns de seus comparsas, resgatando assim, Gordon e Alfred, enquanto Robin convoca Asa Noturna e em seguida o Clube de Heróis, que então ruma para Gotham City atacar seus nêmesis.


Submerso por drogas e pesados jogos mentais, Bruce desliga sua identidade criando um segundo justiceiro, o “Batman de Zur-En-Arrh”, que demonstra que o herói já tinha previsão dos acontecimentos e sabia da traição de Jezebel Jet (!).

Com o espalhafatoso uniforme, baseado numa história história dos anos 1.950 e que também foi homenageada na série Batman: The brave and the bold (aqui), Bruce consegue enfrentar Luva Negra e Coringa, ser enterrado vivo, escapar do caixão e perseguir Luva Negra.

Ao final, quando a situação está sob relativo controle, o herói ferido desaparece após a explosão do helicóptero que permitiria a fuga de Luva e do “terceiro fantasma de Batman”, nas águas do mar que banha a cidade e... fim com uma interrogação de trama em aberto, já que o herói não está lá para receber os louros da vitória.