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Action Comics #03: O mundo realmente contra Superman


Grant Morrison é certamente um dos melhores roteiristas da indústria. Cheio de energia, faz trabalhos antológicos e alguns muito pessoais como Os Invisíveis, que é a narrativa de uma célula terrorista contra seres que controlam o sistema. Lisérgico.

Em Batman, Morrison produziu histórias para um mito, algo que ele tinha deixado claro em pequenas partes como Gothic, um dos primeiros Legends of the dark knight, com arte de Klaus Janson, e em grande parte na passagem na série JLA, uma série para a Liga da Justiça da América que depois de muitos anos reuniria os grandes personagens da editora na equipe. Num dos arcos desta série, praticamente sozinho, o homem-morcego faz a diferença contra uma invasão alienígena.

O super-time de escritores
Quando, no início do século, ouvi falar que Morrison, Mark Waid, Tom Peyer e Mark Millar iriam trabalhar nos quatro títulos do homem de aço de então (Action Comics, Superman, Man of Steel e Adventures of Superman), fiquei animado, mas devo confessar que o quê eu queria ver era o Superman de Waid, escritor que admirava muito pela sua passagem em Flash, narrando histórias de Wally West. Millar ainda não era uma referência e nem tinha feito The Ultimates, apesar de já ter escrito o herói na série que adaptava o universo animated para o quadrinhos – recentemente relançada pela Editora Abril, veja aqui. Tom Peyer me era desconhecido, já que sua série de referência, Hour Man, é inédita no Brasil. Morrison eu conhecia por Homem-Animal, a Liga, Os Invisíveis e Gothic. Achava uma combinação esquisita, um time estranho.

A DC, no entanto, tomou uma outra decisão e manteve uma equipe liberada por Jeph Loeb e que teve uma brevíssima participação de Millar apenas como fill-in (escritor substituto). Num release a editora comunicou que não queria astros nas aventuras do seu maior herói, o quê gerou um mal estar em relação às equipes contratadas (não seriam estrelas) e acabou provocando um racha, levando para a concorrente alguns membros do “super-time”. Mesmo assim houve histórias relevantes e inclusive é deste período uma das melhores histórias do herói kryptoniano (citar a história).

Millar e Morrison foram para a Marvel. A editora estava em ascensão por causa do selo Marvel Ultimate que foi concebido por Joe Quesada, Mark Millar, Brian M. Bendis e Morrison. Este último nunca chegou a realmente trabalhar no selo, mas sempre se comentou a boca pequena que sua série Marvel Boy foi o embrião de todo o Ultiverso. Como mais recentemente o personagem foi definitivamente incorporado no Universo 616 (o universo tradicional da Marvel) muita gente esqueceu sua origem.

Morrison fez New X-Men (que a Panini está reeditando em encadernados bissextos) e depois retornou para a DC Comics, trabalhando na série Batman desde 2.006. Neste meio tempo além da série principal do cruzado encapuzado fez Crise Final, O retorno de Bruce Wayne, Batman & Robin e Batman Inc – esta última, prestes a ser lançada no Brasil. Waid e Peyer estiveram envolvidos em produções e também escreveram histórias. Waid chegou a escrever uma nova origem para o Superman, que fez bastante sucesso em seu lançamento, sendo inspirada pela releitura provocada pela série de TV Smallville, que resgatava versões anteriores do herói, como um período de amizade com Lex Luthor durante a adolescência.


Por fim, escrevendo o homem do amanhã
Morrison fez um trabalho emocionante em All-Star Superman, uma ode de amor a toda a tradição do herói, mas que não deixou de apresentar alguns conceitos difíceis. Tão difíceis que foram retirados quando Dwayne McDuffie adaptou a obra para animação. Livre da cronologia recente do homem do amanhã, ou melhor, livre de qualquer cronologia Morrison influenciou novamente a indústria e permitiu criar o cenário perfeito para Geoff Johns, Kurt Busiek e James Robinson criarem histórias mais simples e Johns, em especial, criar o longo arco Novo Krypton, encerrado definitivamente mês passado aqui no Brasil.

Em Novo Krypton, um dos mitos mais antigos do homem de aço, a Cidade Engarrafada de Kandor retorna à Terra e traz a ameaça de Brainiac, além de toda uma tensão político-militar em função de haver 100 mil supermen na Terra. O arco iniciado por Johns foi continuado por James Robinson, Sterling Gates e Greg Rucka, e infelizmente, devido à grandiosidade do evento e várias séries sendo publicadas em formato cross-over do meio para o fim muito do material é dispensável. Curiosamente a preparação do terreno é interessante, mas os desdobramentos e várias tramas sem um bom desenvolvimento cansam.
Vendo a recém-lançada The New 52: Action Comics #03, observo que em teoria, Geoff Johns e Grant Morrison, usam uma ideia que eu vi primeiro em Superman Adventures, uma das séries de animação produzidas por Bruce Timm – mas certamente leitores mais antigos podem verificar se há indicíos da trama em aventuras em papel do herói. Em Superman Adventures e a partir de agora em The New 52: Action Comics é Brainiac o responsável pela destruição de Krypton, um planeta de núcleo instável, onde após sugar toda a informação disponível da cultura, a consciência artificial de Brainiac ou deixa de cuidar do planeta ou inicia o processo de destruição. Colecionando sobreviventes, como a Cidade Engarrafada de Kandor (presente em All-Star Superman e a razão de Novo Krypton) Brainiac é a manifestação do inimigo insensível e somado à Lex Luthor, realmente uma ameaça que poderia fazer um herói experiente abalar-se, especialmente alguém no início da carreira como o personagem apresentado em Action Comics, um misto de herói dos menos favorecidos com jornalista aspirando a mudança social a partir da denúncia.

A trama da edição Action Comics #03
Enquanto a polícia investiga Clark Kent em função de suas reportagens cheias de denúncias sociais, temos em flashback o ataque de Brainiac à Kandor e à família El, um vislumbre de Krypto o cão da família (que devo confessar não gostei) e o surgimento de Metallo, numa ideia por demais semelhante ao que Geoff Johns fez em Superman: Origem Secreta.

Assim, fico feliz que Morrison, mesmo diante das bobagens da DC Comics em reestruturar seu universo, consiga fazer histórias que usem e abusem de conceitos antigos, sem uma página de cansaço pois os coloca de maneira relevante para a nossa cultura. O Superman de Morrison é o mesmo dos criadores do herói, Jerry Siegel & Joe Shuster, porém num contexto atual. Esta definitivamente é a solução para a editora: contratar uma equipe competente, que saiba analisar o melhor que o personagem tem e trabalhar com isso.

Quando a poeira baixar e as vendas voltarem ao normal, ficarão as lembranças do material bom ou ruim que The New 52 produziu. Action Comics de Grant Morrison e Rags Morales será referência de qualidade e terá as vendas de encadernados catapultadas pelo lançamento do novo filme. Outras se tornarão nota de rodapé nos anais dos quadrinhos.



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