A master of djinn, P Djèli Clark [2021]

[A trama]

Em 1872 um homem sábio egípcio, de origem sudanesa, chamado Al-Jahiz rompe a barreira entre as dimensões e abre um portal que permite que djinn, anjos e ghuls caminhem sob a terra. Em seguida Al-Jahiz desaparece.E o portal se fecha.

Em 1912 o Egito já é um país que rompeu o domínio colonial, acabou de estabelecer o voto feminino e mulheres estão iniciando suas trajetórias para conquistar posições de poder. Além disso possui um “Ministério da Alquimia, Encantamentos e Entidades Sobrenaturais” que é o órgão onde se investiga assuntos relacionados à magia e aos djinn.

Somos novamente apresentados à Investigadora Especial Fatma el-Sha’arawi agora auxiliada a contragosto pela Agent Hadia Abdel Hafez, recém-saída da Academia. Agent Fatma tem o discurso de que atua melhor quando sozinha, o que passava bem no conto que apresentou o universo (A dead djinn in Cairo), mas não se sustenta em 396 páginas. Além de trabalhar em parceria com Agent Hadia, a Agent Fatma está submissa à hierarquia, apesar de ter relativa liberdade. Personagens como Inspetor Aasim e Agent Onsi, que já conhecíamos, aparecem em vários momentos e surgem outros novos, como o djinn bibliotecário Zagros ou o sacerdote de Sobek, o deus crocodilo. Mas quem “rouba” um grande espaço é Siri, também apresentada anteriormente; uma aventureira ligada a Agent Fatma e que se torna, na prática, sua parceira não oficial em mais da metade do livro.

A trama se inicia quando os membros da organização Broterhood of Al-Jahiz composta essencialmente por ingleses, são assassinados por um homem mascarado que se apresenta como al-Jahiz, o mestre dos djinn. Este impostor diz que a organização financiada pelo rico Lord Alistair Worthington, o “english basha” não tem relação consigo e matar os membros é uma maneira de reaver alguns objetos de poder que estavam em posse da Irmandade através de roubos selecionados e corrupção de pessoas que são responsáveis por catalogar estas peças. Ao longo de suas aparições este impostor mostra ser capaz de controlar os djinn e apresenta à sociedade egípcia um discurso de rebeldia – sim, a chegada dos djinn mudou a sociedade, mas há miséria e injustiça social ainda ignoradas – e de rompimento com o poder constituído. Agent Fatma é chamada para investigar e é imposta a ela a nova agente feminina do Ministério, Hadia. Além do nível oficial, Fatma tem o auxílio de Ahmad, sumo-sacerdote de Sobek, que perdeu uma pessoa querida no crime e deseja vingança e de sua parceria de aventuras e cama, Siri, uma jovem de origem sudanesa, habilidosa lutadora com o uso de garras metálicas e que se apresenta como portadora de um grande segredo!

 

[Opiniões]

P Djèli Clark acerta novamente ao produzir um livro que busca fazer inserir no Egito de 1912 valores contemporâneos e criar uma realidade alternativa, já que com a chegada dos djinn o Egito se tornou um país de grande importância. É lá que há uma reunião de forças para pedir a paz – relacionada a uma versão dos acontecimentos da 1ª Guerra Mundial – mas a incapacidade de garantir a paz interna é questionada. Neste momento, Djèli Clark insere elementos que deixam claro que os outros países também tiveram experiências para libertarem seus seres místicos, em especial a Alemanha - há o chamativo goblin nos ombros do político alemão.

Desde o conto e a noveleta a série se posiciona em um ambiente “steampunk” que continua a se reforçar aqui apresentando equipamentos e seres mecânicos construídos com a tecnologia deste período. Alguns chamam a atenção como uma motocicleta e um robô gigantesco que destrói seu galpão quando surge – uma cena clássica e bastante visual de liberação de monstros mecânicos - e este robô traz uma área à altura do peito onde ficam as pessoas que o controlam; algo bem tangível e fácil de visualizar.

Observo que em alguns momentos ao se referir a classes de djinn nota-se a falta de uma referência inicial de tais classes e o quê as diferencia, não que isto atrapalhe a leitura. Mas sou a favor de uma lista de classes e criaturas no início do romance.

Noto ao fim, dois detalhes: o roubo de um objeto místico foi facilitado por seus guardiões, e apesar de sabermos que aconteceu isto, não há aprofundamento acerca da motivação e suas consequências; o quê não é um defeito em sim, mas uma possibilidade para ser abordado em um volume futuro. No entanto, em dois momentos djinn que estavam dormindo quando houve um pacto são retratados de maneira distinta em relação a este pacto. Num momento o djinn é alheio ao pacto, já que não se submeteu a ele; noutro um grupo de djinn que também dormia em seu reino original se submete. Não incomoda, mas é possível notar a questão.

No restante o livro é uma excelente trama de mistério bastante baseada na aventura física. Há uma dúvida real sobre a identidade do impostor e a maneira com que os detalhes se desdobram e as agentes Fatma e Hadia conversam com os investigados lembram em muito os clássicos de mistério/crime como os romances de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, elas questionam as pessoas, suas motivações, suas ações e falhas destas narrativas apontam para a solução do crime. A maneira como descreve a sociedade, suas conquistas e suas falhas; assim como sua visão dos jogos de poder denotam um escritor antenado e capaz de construir um universo crível e interessante.

Aconselho a todos!