Mulher-Maravilha: Guerra [Panini, 2018]

O ponto mais difícil para um autor é saber quando dizer “Fim”. As histórias coletadas em “Guerra” são exemplos claros disto.

Nos volumes anteriores descobrimos que Diana é filha de Zeus e que há um novo “último” herdeiro, dono de uma maldição própria. A heroína decide proteger a criança e agrega alguns personagens interessantes, outros nem tanto, mas se destaca Órion de Nova Gênese, visto que foi na série Wonder Woman de Os Novos 52 que a DC Comics decidiu trazer para o Universo DC o conceito de Os Novos Deuses.

A série é visualmente interessante e tem conceitos de arte originais para representar os deuses e semideuses, mas parte da magia se perde na quarta edição exatamente porque já vimos tudo aquilo antes. E é isto! Surge mais o inimigo bestial, o “Primogênito”, mais uma luta, mais feridos e em determinado momento da trama Orion decide levá-los para Nova Gênese para tratar os ferimentos e para dar um respiro. Surge a edição 22 que é o interlúdio no mundo dos Novos Deuses sem, no entanto, aprofundar muito nas motivações, apresentando um Pai Celestial mais militar e menos tolerante com Órion. Deixa claro que teremos mais para a frente.

A irritação é que a última edição (23) termina sem terminar a trama, deixando tudo em aberto, deixando claro que as edições #19-23 foram “apenas” um capítulo e o melhor resumo do capítulo é “um inimigo poderoso se estabelece, conhecemos Nova Gênese e um amigo caí” é isto que acontece na edição.

Chocada com mortes ditas desnecessárias, a heroína decidir não matar o antagonista que vitimou tantos companheiros e segue para velar pelo meio-irmão tombado. Estende a conclusão de parte da trama para os arcos seguintes, ao meu ver desnecessariamente. Há uma certa beleza e até poesia no desenrolar, mas como não há conclusão de fato e tudo fica em aberto para uma nova rodada do conflito que era o foco da edição, então soa mal. Novamente muito volume de papel para pouca história.

Mulher-Maravilha (volume 4): Guerra; Panini Comics, 2018, ISBN 978-85-4260-988-2; reúne Wonder Woman #19-23 com texto de Brian Azzarello, lápis de Cliff Chiang e Goran Sudzuka e finais de Tony Akins e Dan Green.

Scooby Apocalipse volume 1 [Panini, 2018]

Reunir JM DeMatteis, Keith Giffen e Howard Porter (emulando em muito Kevin Maguire) certamente seria uma tentativa de reeditar o processo de Liga da Justiça Internacional, mas não funcionou assim! Infelizmente!

Scooby Apocalipse tem uma história sólida mas que não consegue evitar a sensação de “já vi isto” a todo o momento!

A trama que adapta o plot básico da série de desenhos animados “Scooby-Doo onde está você?” para nosso contexto de conspiração a cada esquina e mostra os astros de um programa de TV decadente, Daphne e Fred, sendo convocados por uma cientista misteriosa Velma para denunciar um experimento genético. Inadvertidamente se unem a eles “Salsicha” Rogers, um treinador de cães, que se afeiçoou ao covarde dogue alemão Scooby-Doo que vive com implantes que lhe permite falar em reduzido nível e projetar emoticons!

A trama tem seu ápice quando os cinco já reunidos invadem a estação de pesquisa, mas o vírus de nanitas é liberado na atmosfera, transformado alguns infectados em monstros da cultura pop. Velma passa a expiar a culpa e uma história bem risível é construída em cima disso, enquanto ora Daphne a culpa, ora compreende que a cientista queria denunciar o experimento.

A representação dos personagens está adequada, bem palatável. Salsicha é retratado como um hipster idiota, Fred como um apaixonado que é capaz de fazer tudo por Daphne, mas certamente esta, Velma e Scooby se destacam, especialmente a cientista que é dona de parte da narrativa sobre os “comos” e os “porquês”. Há, no entanto, espaço para todos. Infelizmente parece um “The Walking Dead” genérico, algo que nos ligaremos afetivamente enquanto durar a série, mas que, quando encerrar, poremos no fundo do baú e só tiraremos a cada década para dizer falsamente “quanto era bom”.

A arte do Porter é ruim, estática e seu personagens parecem envelhecidos, isto quando não está copiando a construção facial de Maguire! Em alguns momentos Fred parece uma “tiazona” de sessenta anos com sucessivas plásticas que não funcionaram tão bem! Salvam as belas capas alternativas de Jim Lee – evidentemente para quem gosta da arte dele. O roteiro é básico: com a contaminação os cinco tem que resolver suas diferenças enquanto estão aprisionados em um mercado após terem fugido da estação de pesquisa em uma “Máquina do Mistério” em formato de tanque. Estarem presos daquela maneira me lembrou muito “The Walking Dead” no início, quando estavam na prisão.

Construída no processo de repaginação das propriedade “Hanna-Barbera”, “Scooby Apocalipse” foi minha maior expectativa e maior decepção! Acompanhei o lançamento e li os dois primeiros números, mas lendo o primeiro volume completo achei parado, sem desenvolvimento, com um pé no freio! Muita coisa acontece no número 1, alguma no número 2 e depois é só repetição ou estagnação. Talvez se a série migrar para o humor sem limites que caracterizou a Liga da Justiça Internacional eu continue! Curiosamente neste momento já foi lançado no número 25 nos EUA, tornando-se uma das séries com maior duração do projeto, indicando que certamente os autores conseguiram salvar o arroz! No Brasil o volume 2 já está disponível para pré-venda.

Certamente um material que não é apenas para saudosistas, pois atira em todas as direções, mas me soa como o produto mais fraco do projeto.

Scooby Apocalipse volume 1, ISBN 978-85-8368-280-6, Panini Comics, 2018, reúne as edições #1-6 da série americana Scooby Apocalypse.

Thanos volume 1: Thanos retorna [Panini, 2018]

Não creio em coincidências. Sei que são padrões que a mente humana usa para organizar a informação.

Ontem li Dylan Dog Mater Mobi, onde uma personificação da doença contaminada o detetive do pesadelo, Hoje leio Thanos (Panini, março de 2018, ISBN 978-85-4261-060-4) onde o personagem título descobre-se doente de uma doença terminal e isto é o gatilho para toda a trama deste volume que coleta as edições #1-6 da série de 2016 do personagem – em tempo: há, no mínimo, mais uma série “Thanos” inicialmente escrita por Jim Starlin e também publicada pela Panini Comics.

Escrita por Jeff Lemire e com arte digital de Mike Deodato a trama não é realmente complexa. Enquanto Thanos tenta achar uma explicação e cura para a doença que o acomete, navegando no espaço, enfrentando seu pai, Mentor dos Eternos de Titã e a Guarda Imperial de Shiar, e fazendo o leitor de bobo, pois ali está a ação mas não a trama de fato; do outro lado temos Thane, filho de Thanos, que reúne uma equipe formada pelo Ancião do Universo Tryco Slatterus, o Campeão; o irmão de Thanos, Eros o Starfox e Nebulosa, tudo com as bençãos de uma personificação da Senhora Morte, que aparentemente trocou o pai pelo filho.

Tudo parece cansativo, roteiro requentado e reprisado ad eternum. A arte de Deodato impressiona positivamente. As hachuras, as linhas verticais e horizontais, tudo em excesso e detalhadas conseguem realmente me fazer imaginar os cenários, os locais em mínimos detalhes. Apenas para registro, é cenário dizer que o artista trabalha há muito (no mínimo desde a passagem em Hulk de Bruce Jones) com o uso de equipamento digital para compor seu desenho. Todo o detalhamento que existe é resultado das ferramentas empregadas e da competência do artista em usá-las. O resultado é impressionante e ofusca o roteiro primário de Jeff Lemire, que retorna há uma questão que está dominando as últimas duas ou três décadas da produção cultural norte americana: a necessidade de o filho sobrepujar o pai e “matá-lo” ou “exorcizá-lo”. De Os Sopranos a Battlestar Galactica, de Thor de Dan Jurgens a Mulher Maravilha de Azzarello há um excesso de exorcismo paternos na indústria cultural.

Divertido como um entretenimento para leitura rápida, “Thanos retorna” de Jeff Lemire e Mike Deodato não sobrevive a uma análise mais profunda de “comos” e “porquês” e certamente é uma diversão bonita, bem desenhada e colorida de acordo ao tema.

Impressiona a capacidade de a Panini Comis conseguir colocar um título “Thanos” nas bancas ao mesmo tempo em que o filme “Vingadores: A guerra infinita” chega aos cinemas e mais, conseguir ainda colocar o encadernado “Desafio Infinita” à disposição no mesmo período! Evidentemente há um “custo” Thanos tem “data de capa” de março de 2018, quando não foi distribuído antes da segunda quinzena de abril.

Thanos diverte mas é mais uma história com 140 páginas que poderia ser contada no formato “graphic novel” em 48 ou 60 sem nenhum prejuízo.