Pistoleiro (Deadshot, 1988)


A Multiversidade: Pax Americana


Um sinal do espaço de Will Eisner


Amálgama: A era dos quadrinhos


Astro City v2: Confissão (2015, Panini)


O trem dos órfãos (2015, Editora 8Inverso)

[História]
No fim do século XIX um grande programa realocou crianças órfãs ou em condições de miséria de Nova Iorque para o oeste dos Estados Unidos da América.
Esta história se passa em 1.920 e narra a viagem de Jim, tentando proteger seus irmãos e permanecer unidos ao mesmo tempo em que aprende a regras da vida que lhe foram impostas. Setenta anos depois, em 1.990 o velho Jim procura juntar os cacos de sua vida e reencontrar-se com seu passado.

[Comentários]
De longe o melhor lançamento inédito que li neste ano, O trem dos órfãos consegue atingir seu objetivo sem ser didático em demasiado. Narra a história do Orphan Train Riders, explica o contexto, os objetivos, e os vícios do programa sem longas passagens cheias de diálogos tediosos. O leitor sente a tristeza de Jim e como o personagem se encontra perdido nos eventos que o cercam. Seu pai o abandona e ele, analfabeto, não sabe reconhecer o fato. Aos poucos vê seu irmão mais novo e sua irmã de colo também serem adotados e, no processo, perde a própria identidade.

A obra de Phillipe Charlot (texto) e Xavier Fourquemin (arte), com cores de Scarlet Smulkowski e tradução de Danielle Reichelt é belíssima e o único senão é o formato adotado pela Editora 8Inverso, menor que o tradicional formato “álbum” usando um formato parecido com o adotado pelo HQM na série Os mortos-vivos. O álbum merecia não somente o formato padrão para os álbuns franco-belgas como um acabamento em capa dura.

Belíssimo trabalho com texto, arte e cores que conseguem unir-se para apresentar um resultado final adequado e pungente.

No site da editora original (aqui) é possível notar que há um segundo ciclo da série e mais quatro álbuns vinculados a este segundo ciclo.

O trem dos órfãos – 1 – Jim/ 2 – Harvey de Phillipe Charlot & Xavier Fourquemim, tradução de Danielle Reichelt, Editora 8Inverso, 1ª Edição, Porto Alegre, julho de 2015. ISBN 978-85-62696-30-5.

Sense8, Rising Stars e Os Eternos

Lendo a tonelada de papel impresso e colorido e deixando de lado as duas toneladas de papel branco impresso com tinta preta e eventualmente assistindo aos finais de campeonatos de basquete, Flash e algumas séries da Netflix.

Eis que me deparo com Sense8, que merecerá uma análise detalhada. Mas no primeiro momento o produto dos criadores de Matrix (The Wachowskis) e Babylon 5 (J. Michael Straczynski) que lembrou… Os Eternos, não o de Jack Kirby, mas o de Neil Gaiman que calhou de eu estar lendo no mesmo momento. Por que? A forma em que apresenta os super-seres, com seus flashes e memórias compartilhadas me fez lembrar as duas primeiras edições dos Eternos (2006).

Há em Sense8 boas tiradas como a dos ladrões de cofres, onde um deles interrompe um assalto para assistir a um programa na TV, e há o casal homossexual da vez, que não parece deslocado. Há uma sensibilidade no casal real, mas não se deixa de notar uma ironia estranha, que parece remeter aos produtores/diretores: o casal homossexual é formado por uma moça e um transsexual, que aparentemente mudou de gênero de macho para fêmea. Pode ser uma impressão errada do primeiro episódio, mas o detalhe chama a atenção.

Resta lembrar que Straczynski já trabalhou com super-seres em vários oportunidades nos quadrinhos, mas temos boas lembranças do primeiro trabalho dele: Rising Stars, já publicado no Brasil. A razão é que o autor gosta de reciclar ideias e é bom ver as fontes.

E por fim... que tolo o season finale de Flash. Me lembrou uns dois ou três season finales de Smallville, especialmente depois que Jeph Loeb passou a trabalhar na série: um evento de impacto... que será ignorado na próxima temporada ou será resolvido com um lance mágico.

Multiversidade, Fim dos Tempos e Convergência

A Panini Comics anunciou que vai reunir as séries Multiversidade, Terra 2 e Fim dos Tempos em um mix chamado de Multiverso DC.

Multiversidade é uma série de especiais escrito por Grant Morrison e passam em Terras alternativas do Multiverso DC. Dos oito especiais, li cinco e achei razoável, ainda que ver a enésima versão de um conceito simples (Terra X, por exemplo) não seja tão relevante assim. Se fosse um encadernado somente com os oito especiais, renderia mais.

Terra 2 é um dos títulos de Os Novos 52 e se passa em uma Terra alternativa onde surgiu a Sociedade da Justiça. Apesar de um bom início nas mãos do escritor James Robinson, que havia trabalhado em Starman (1994) e no relançamento da Sociedade da Justiça na série SJA em 1998, o autor se afastou devido a interferências editoriais.

Fim dos Tempos é uma série semanal – mais uma – e teve muitos especiais e minisséries para abordar o tema.

A Panini reúne tudo isso em um mix e abre caminho para publicar aí também o evento Convergência.

Reunir desta maneira é um excelente jeito de ignorar tudo.

Convergência não resolve o problema do Multiverso da DC e só faz fan service ao apresentar histórias das versões antigas dos personagens da editora. Algumas são excelentes: o Superman pré-Flashpoint, o Gavião Negro de Tony Isabella, mas algumas são extremamente datadas e presas ao contexto em que foram geradas, como o Aquaman de Peter David.

Incapaz de produzir conteúdo de qualidade, Convergência será nota de rodapé em alguns... anos? Não, em alguns meses! Multiversidade, que aqui será publicado junto, deverá ter um destino melhor: ganhará um espaço nos livros futuros. O de primeiro lugar em que surgiram versões modernas de alguns personagens.

Pela soma do apresentado: ignore tudo isso e continue a comprar encadernados do material Marvel e DC entre 1962 e 1994. Há raras exceções de material de qualidade posterior e normalmente é vinculado a apenas uma série.

A Guerra Secreta da Convergência


A DC Comics ressuscitou pela enésima vez seu Multiverso! 

Agora para um objetivo muito nobre: as Terras brigarão entre si.

Caso você tenha perdido o interesse a muito tempo, em linhas gerais este é o mesmo argumento de Countdown: Arena, onde versões dos personagens do Multiverso lutavam entre si. Naquele momento lutavam para um lugar em um exército, agora pela vida e sobrevivência de sua cidade/exército.

O mais terrível é que as premissas gerais lembram a atual série Guerra Secreta, que está sendo publicada pela outra editora.

Em ambas, Convergence (DC Comics) e Secret Wars (Marvel Comics) cidades são roubadas de seus mundos e o universo é reestruturado.

Ironicamente a série Crise nas Infinitas Terras (1985) foi, durante um tempo, referenciada como uma versão de Guerras Secretas da Marvel Comics.

O triste é que com todo o potencial do Multiverso e, por extensão, do Omniverso, nem a Marvel nem a DC sabem o quê fazer com ele.
A série de Jeff King & Scott Lobdell é risível, ridícula e a premissa geral é enfadonha. É triste ver morrer desta maneira personagens que acredito em seus potenciais. Será que ao trazer o Multiverso de volta a DC também trará os personagens, conceitos e situações de outrora? Ao vai continuar com suas versões Os Novos 52?

Se não vai mudar nada, então para que trazer o Multiverso de volta?
  

 

  

A saga do Monstro do Pântano Livro 3


Este volume reúne

The Saga of Swamp Thing
#
Mês
Título
35
Abril/1985
Notícias do Fuça-Radioativa
36
Maio/1985
Notícias do Fuça-Radioativa II
37
Jun/1985
Padrões de Crescimento
38
Jul/1985
Águas paradas
39
Ago/1985
História de pescador
40
Set/1985
A maldição
41
Out/1985
Mudanças sulistas
42
Nov/1985
Estranhos frutos

É a nata da produção. Reúne a parte inicial daquilo que chamamos durante muito tempo de “Gótico Americano” e reedita material que foi visto em Superamigos e os primeiros números da série Monstro do Pântano da Editora Abril.

Aqui vemos pela primeira vez John Constantine (#37) e descobrimos que uma seita está tentando atrair Cthulu, um ser primordial para a Terra, explorando as energias de Crise nas Infinitas Terras. Para tanto a Brujeria passa a se valer de histórias de vampiros (#38-39), lobisomens (#40) e misticismo vodu, com direito a zumbis (#41-42), para espalhar boatos e colher energias. Ao fundo, em algumas edições, notamos um céu vermelho que funciona bem, dado o tema de terror das aventuras, mas é tão sutil que nem percebemos que o Universo DC estava sendo reestruturado.

Constatine era um jovem inglês amoral e que flertava com magia. Naquele momento parecia um lorde com a face do Sting. Manipulador, queria usar Alec para fazer frente a Brujeria, nem sempre conseguindo plenamente. Em algum momento pensei em um lorde inglês entendiado que flertava com punks, drogas e magia.

Moore conseguia narrar histórias antigas com incrível criatividade e força. Se as edições que relatam os acidentes radioativos parecem um pouco panfletárias passados estes trinta anos, se a edição #37 não acrescenta muito além da habilidade de regeneração e transporte instantâneo, ainda que imensamente importante para o personagem, é nas edições seguintes que o autor nos surpreende ao mostrar vampiros embaixo d'água – elas não são “águas correntes” como aprendemos nos velhos filmes da Hammer – ou vai além, quando mistura tradições indígenas, misoginia, ciclo menstrual e licantropia. Depois usa a habilidade para transformar o cenário de uma novela em uma vingança entre almas que não descansam. É necessário observar o contexto: as revistas de fofocas certamente dariam espaços para o ocorrido e os boatos alimentariam a Brujeria.

Faltando ainda três edições agora (uma para o final de “Gótico Americano”, uma para a prisão de Abby e o conflito em Gotham e outra que narre o período no espaço), já tenho saudades daquele período da série – e, por extensão da indústria – onde tudo parecia ser possível.

Uma série memorável e que merece ser lida e relida.


Os mortos-vivos volume 16: Um mundo maior (2014)


Rick Grimmes encontrou Alexandria e descobriu que poderia viver em comunidade novamente e que seria interessante. Robert Kirkman, autor da série, então queima etapas nas questões de poder e sua tomada e retomada e nos leva ao próximo nível: Hilltop.

Hilltop é uma comunidade pacífica maior e que faz está produzindo e comercializando há um maior tempo. Mas temos que ter um vilão. O vilão da vez será Negan e os Redentores, que exigem metade da produção e são violentos.

Um mundo maior reúne as edições The walkind dead #91-96 e chega esquemático: já inventamos a roda, agora vamos girá-la em outras velocidades e ver o resultado. O interessante é que funciona e deixa para trás a sensação de trama requentada.

A trama é básica: Jesus é o recrutador de Hilltop, uma comunidade pacífica de cerca de duzentas pessoas, que deseja estabelecer relações comerciais com Alexandria, pois já tem comércio com outras comunidades. Depois das longas (e merecidas) páginas de desconfiança, Rick, Carl, Glenn, Andrea e Michonne vão à Hilltop e verificam que tudo é verdade. Mas chegam em um momento de conflito, onde Negan está ameaçando a comunidade.

Incapaz de negociar algo pois Alexandria não produz nada, Rick oferece acabar com a ameaça dos Redentores, ainda que tenha que convencer seus pares.

Prepare-se para o choque das próximas edições.

Os mortos-vivos volume 16: Um mundo maior, outubro de 2014. Texto de Robert Kirkman, lápis e finais de Charlie Adlard, tons de cinza de Cliff Rathburn. HqM Editora/Image Comics. ISBN 978-85-998-5989-6.

Os mortos-vivos volume 15: Redescobertas (2014)


Comentei no review do volume anterior (14: Sem saída) que a história estava narrando tramas muito semelhante, com pouca diferença real. Desta vez Rick não quer ser o “Lobo Solitário e Filhote”, quer estabelecer um lar e defendê-lo, quer viver em comunidade.

É isto. Carl foi ferido e se recupera, Andrea se aproxima de Rick e ele reorganiza a comunidade para ampliar a proteção e buscar recursos. Nada muito novo e nem mesmo quando um dos habitantes inicia um motim e Rick e seu grupo descobrem temos um choque. Nem mesmo quando Rick não o mata: já vimos Rick matar, agora o vemos não fazer isto. Variações do mesmo tom, sem sair do tom.

No mais é inverno, há pouca comida próxima e os invasores que cobravam impostos ainda não retornaram. É o típico volume “estrutural” que define ou redefine os eventos que ocorrerão nos volumes seguintes e funcionar bem. Kirkman parece fazer um volume que limpa a história até o momento e cria um novo divisor.

Os mortos-vivos volume 15: Redescobertas, outubro de 2014, HqM Editora/Image Comics. Reúne The walking dead #85-90 e uma história curta para CBLDF Liberty Annual 2012. Texto de Robert Kirkman, lápis e finais de Charlie Adlard, tons de cinza de Cliff Rathburn. ISBN 978-85-998-5988-9.

Astro City v2: Álbum de Família em pré-venda

Nesta semana a LigaHq anunciou uma série de encadernados em regime de pré-venda.

Entre eles se destaca Astro City volume 2: Álbum de Família.

O encadernado reúne as primeiras edições de Kurt Busiek's Astro City volume 2 dando foco nas mudanças da família seja em First Family, Jack-in-the-box ou um mero morador da cidade.

Veja abaixo o vídeo que fiz do primeiro encadernado:





Batman e o telefone


Batman Eterno é a uma série semanal do homem-morcego onde um personagem misterioso está orquestrando um ataque ao protetor de Gotham City e, por extensão, à própria cidade.

Em um determinado momento Bard e Bullock necessitam conversar com o Batman, mas a política do atual comissário é de combate ao vigilante. Decidem o quê?

Usar um telefone!

O simples assusta! E assusta muito! Mas é muito mais inteligente usar um telefone para ligar para o morcego que acender um sinal apontado para os céus da cidade e indicar onde o encontro será, permitindo que criminosos também saibam.

Batman poderia ter um número de celular pré-pago com tecnologia de ponta e tudo estaria resolvido – ou pelos menos a parte do “entrar em contato”.

A mítica do sinal para alimentar o medo é uma premissa interessante, mas pelo advertir, nem sempre inteligente. Às vezes o moderno funciona.

Superman: À prova de balas (2015)

A sensação que fica quando se termina a leitura de SUPERMAN: À PROVA DE BALAS é a de decepção! E é uma sensação que começou a se arrastar lá atrás, por volta do meio da edição.

A edição da Panini Comics é um tijolo de 680 páginas que reúne Action Comics #01-18; a edição #0 e Action Comics Annual #01 e mostra a repaginada série inaugural do homem de aço agora sob a bandeira do reboot intitulado Os Novos 52, que reiniciou o Universo DC em 2011 e fez profundas alterações em especial no Superman e Liga da Justiça – em contrapartida Batman e Lanterna Verde tiveram a continuidade mantida.

Grant Morrison derrama alguns conceitos interessantes no primeiro arco, especialmente até a edição #9 onde apresenta um Superman presidente dos EUA em uma Terra alternativa… hum, eu falei que ele é negro?

Depois disso é um marasmo em costurar uma improvável história que envolve mágicos e princesas da 5º dimensão. No meio uma confusão para mostrar que Clark Kent em algum momento fingiu sua morte, que o Superman morreu enfrentando o Super-Apocalipse (um Superman de outra Terra alternativa! Precisa?) e a perda dos pais humanos em uma história de viajantes do tempo. Perdidos na trama temos a Legião dos Super-Heróis (clássica) e o Capitão Cometa, este numa trama digna de livro B de sci-fi mas deslocado aqui.

A arte de Rags Morales casa bem com o tom da série, mas ele tem vários fill-in para auxiliá-lo. Em vários momentos ouço ecos de Tom Strong e outras obras de Alan Moore. Aí eu paro e penso como a indústria está canibalizando o autor inglês. Será Morrison ou a infinitas interferências editoriais da DC Comics?

Diferente do quê fez em GRANDES ASTROS: SUPERMAN, talvez uma ode de amor ao personagem, Grant Morrison produz um material que será facilmente esquecido. Memorável e divertido são as duas, talvez três primeiras aventuras, com um jovem Clark Kent/Superman infringindo a lei e tentando solucionar todas as mazelas do mundo. Depois tudo se torna uma confusão e os responsáveis esquecem do essencial: divertir!

Uma pena!


* * *

Considerando o preço praticado por OS INVISÍVEIS do mesmo Grant Morrison, mas extremamente hermética, À PROVA DE BALAS foi desnecessariamente caro. A Panini praticou o preço de R$24,00 em média para uma edição que reúne oito aventuras da série THE INVISIBLES com a encadernação em capa mole (entre o outono e primavera de 2014). As 25 edições da primeira série americana teve o custo final de cerca de R$ 72,00, dividido em três encadernados, enquanto À PROVA DE BALAS tem preço sugerido de R$ 158,00 e só em alguns sites é possível preços diferenciados. Depois de pesquisar e me decidir por R$ 110,00 encontrei na FNAC a R$ 94,00, 60% do preço sugerido.

Apesar de extras típicos da era da Wizard/Wizmania com comentários das primeiras edições, falta uma entrevista em que Morrison explique por que decidiu trabalhar daquela maneira.

No fim é uma edição decepcionante e cara.


Superman: À Prova de Balas (2015), reúne Action Comics #01-18; 0 e Action Comics Annual #01 (2011-2012). Texto de Grant Morrison, Sholly Fisch, arte de Rags Morales, Brad Walker, Andy Kubert, Cullin Hamner, Gene Ha, Brent Anderson e outros. ISBN 978-85-8368-072-7.

O Superman da Terra-23

Se existe algo divertido e relevante em SUPERMAN: À PROVA DE BALAS (Panini Comics, 2015) além do uniforme de Clark Kent nas primeiras edições é Calvin Ellis, o presidente dos EUA e o Superman… da Terra-23.

A prova de que o uniforme é divertido é que a DC o está utilizando (com adaptações) no semi-reboot que está construindo neste momento nos EUA. Já Calvin Ellis consegue ser divertido, interessante e politicamente ativo. Seu personagem é o resultado do “endurecimento” do Clark Kent que Grant Morrison nos apresentou: ele é o presidente dos EUA e decide tomar o destino do mundo em suas mãos, fazendo aquilo que crê ser correto. É assim, um misto de Hiperion de Poder Supremo (cadê o encadernado Panini?), com o Superman dos anos 1970/80 e parte do radicalismo presente no texto de Morrison na versão Superman do Universo Os Novos 52. Talvez a DC não tenha deixado o autor brincar o suficiente com seu Clark e ele tenha decidido criar um universo paralelo para dar vazão.

É bom?

Esta é uma pergunta difícil. O Superman da Terra-23 surgiu em Action Comics #09 e teve direito a história principal e também a história backup da edição. Depois retornou em The Multiversity #01. Como personagem de edição única e série, mostra-se interessante. Algo que me lembra da série dos Positrônicos de Isaac Asimov: alguém que passa a guiar a humanidade levemente, mas sem o radicalismo de tomar o poder e sem as consequências destes atos.

Mas a DC tem histórico em arruinar seus personagens. E afinal todo dia é dia de a DC Comics fazer algo errado.


Veremos.







Os mortos-vivos volume 14: Sem saída (2014)

Há um momento em que toda série cansa e parece não progredir com a mesma força. A partir daí as situações são repetitivas e ecoam o quê já vimos. Às vezes o eco é sutil, às vezes forte. Os mortos-vivos chegou neste ponto para mim. As tramas são desdobramentos, alguns sutis, outros nem tanto, de tramas anteriores, estendidas e com trajetórias distintas.

Ainda assim Sem saída o arco das edições The walking dead #79-84 é bom, pois nos mostra até onde Rick Grimmes está disposto a chegar para manter aqueles que lhe são caros, e mais importante: quem são esses!

Imperceptivelmente também corre a questão das semelhanças entre Rick e o Governador, melhores exploradas nas temporadas quatro e cinco da série de TV.

A edição trabalha o conceito de horda que surgiu nos volumes anteriores (veja volumes 10, 11, 12 e 13) e mostra que os andarilhos são atraídos por sons, especialmente de tiros que se propagam. Aqui uma horda invade a cidade que vivia em relativa paz e autonomia e o grupo é separado em diversos grupos. Rick decide fugir e abandonar, mas um evento o faz perceber que é importante ficar e estabelecer uma posição.

A partir daí ele percebe que é possível fazer frente a praga zumbi. Mas quanto de sua humanidade ele perdeu no caminho? E a perda da edição, será possível superar?


Os mortos-vivos volume 14: Sem saída, março de 2014. Tradução de The walking dead #79-84. Escrito por Robert Kirkman, lápis e nanquim Charlide Adlard, tons de cinza Cliff Rathburn. HqM Editora. ISBN 978-85-998-5980-3.

Marco Polo (Netflix, 2014)

[Trama]
Marco Polo (Lorenzo Richelmy), genovês, é um jovem que não conhece o pai em viagem desde antes do seu nascimento (e que não tinha conhecimento da existência do rapaz) e que crê que viverá aventuras com seu pai viajante quando este retornar. Assim que se encontram e partem para a China, Marco é deixado por seu pai e tio na corte do mongol Kublai Khan (Benedict Wong), o khan dos khans, neto de Gengis Khan e fundador da Dinastia Yuan (1271-1368).

Praticamente vendido como uma mercadoria, já que ficou na corte enquanto seu pai obtinha permissão para negociar no império do khan, Polo terá que provar seu valor de diversas formas e vezes. Terá que se provar para o vice-rei Yusuf (Amr Waked), para o ciumento Príncipe Jingim (Remy Hii) e o ministro das finanças Ahmad (Mahesh Jadu), apesar de conseguir um bom relacionamento com Byamba (Uli Latukefu) um bastardo de Kublai e a amizade verdadeira com o monge cego Hundred Eyes (Tom Wu, preferi deixar em inglês pela conotação que o som de “cem olhos” teria em português para um personagem cego).

Marco ganha confiança do khan e aparentemente sua amizade, mas é posto em cheque em diversas ocasiões. Numa o pai retorna e contrabandeia o bicho da seda e ele é envolvido, sendo acusado de traição. Noutra se envolve com a “princesa azul” Kokachin (Zhu Zhu), com quem se enamora e descobre ser uma das servas da verdadeira Kokachin que se suicidou. Ao longo da trama a “princesa” será prometida como segunda esposa ao Príncipe Jingim, filho de Kublai e sua imperatriz Chabi, um jovem fraco que deseja se provar diante do pai, por sinal o mote da temporada: filhos que desejam provar aos pais o valor. A partir do momento em que passa a habitar no palácio de Kublai, Marco tem treinamento marcial com Hundred Eyes e será enviado em várias missões de modo a agir como conselheiro e estrategista. É ele que descobre a traição de um dos irmãos de Kublai – o quê humilha Jingim que não conseguiu perceber a ameaça – mas falha ao fazer um relato incorreto da muralha que circunda a sede do poder Song, a cidade murada.

A grande trama da temporada é a tentativa do chanceler Jia Sidao (Chin Han) em manter a Dinastia Song no poder a todo custo. Sidao mata embaixadores de seu próprio reino que negociam a paz a mando da imperatriz-mãe, mata a própria e não hesita em explorar da prostituição da irmã Mei Lin (Olivia Cheng), primeiro como concubina do imperador Song, de quem tem uma filha e depois concubina infiltrada no harém de Kublai Khan, a quem mataria.

[Opinião]
Escrito e criado por John Fusco a série de dez episódios disponibilizada em 12 de dezembro de 2.014 pelo serviço Netflix, teve uma recepção morna e demora a pegar. Recebeu críticas acerca de não ser empolgante. É um fato. Tem um início confuso, como de uma história contada a partir do segundo capítulo. Claro que há a questão de domínio territorial e o conflito de mongóis e chineses, mas falta algo para situar melhor o conflito entre Kublai e Sidao. A motivação é o poder, mas não há uma apresentação adequada dos personagens. Não fica claro a razão de tanto conflito familiar na família de Kublai, que enfrenta o irmão em duelo e bane um primo que não aceita marchar sob sua bandeira, depois de algumas derrotas. Novamente a questão é o poder, mas com o irmão a trama não é dissecada adequadamente e com o primo a história fica truncada.

O primeiro terço da temporada é lento. As paisagens são bonitas, mas não convence a fácil ascensão de um europeu no Império Mongol. Ou melhor não convence a quase instantânea simpatia do khan por ele em contrapartida da antipatia de grande parte de sua corte.


Porém é uma temporada com dez episódios, então as coisas têm que ter velocidade. Assim a metade final da temporada melhora bastante a ação, os conflitos, os mistérios e tem um óbvio, mas bem explorado gancho para a segunda temporada, confirmada em pelo serviço em um anúncio em 7 de janeiro de 2015.

A mão esquerda da escuridão, Ursula K. Le Guin


[Trama]
Genly Ai, embaixador de uma organização que agrega vários planetas, chamada Ekumênico, chega a Gethen, conhecido como Inverno, e encontra um mundo dividido em nações onde se destaca uma monarquia (Karhide) e uma suposta nação tecnológica (Orgotta), mas que se revela um regime comunista com direito a emprego para nada fazer fornecido pelo Estado, censura prévia e prisões em ermos gélidos.

Incapaz (como eu) de entender as nuances daquele mundo, onde seus habitantes possuem ambos os sexos e a fisionomia andrógina, Ginly Ai é tratado como aberração e mentiroso em ambas as nações. A trama basicamente é sobre o estranho de uma sociedade sem sexo e sem papéis pré-definidos e sua fuga para chamar seus companheiros que aguardam no espaço. Desconfiado da ambiguidade levemente feminina de Estraven, que desde sua chegada em Karhide passou a ser seu interlocutor com o rei, Ai teme uma traição. Foge e se percebe em uma situação ainda pior.

Sentido-se culpado do destino de Ginly Estraven decide resgatá-lo para permitir que convoque seus companheiros. Como subplot parte da história das tradições de Gethen e parte da história de Estraven.

[Opinião]
Mais longo do quê acredito ser necessário, A mão esquerda da escuridão daria um excelente conto ou novelletta. No formato em que ficou, se entende tediosamente na fuga dos personagens principais e sua luta para enfrentar uma região gélida.



Ganhador do Hugo e Nebula como melhor romance (1969 e 1970, respectivamente), em 1987 a revista de ficção científica Locus o ranqueou como o segundo melhor romance de sci-fi de todos os tempos.

Há detalhes interessantes como o tratamento da sexualidade dos habitantes de Inverno e o fato que eles são essencialmente assexuados exceto em um período de cio chamado kemmer. Como cada habitante pode assumir atributos femininos ou masculinos variáveis a cada kemmer, este fator influenciou profundamente aquele mundo. Um bom exemplo é que eles não conhecem a guerra e nem o sexo não consensual e o estupro. Por extensão aparentemente não há prostituição e excessivo protecionismo aos filhos ou disputa de amor entre “pai” e “mãe”. Em divisão entre sexos não há a submissão do feminino antes o masculino e nem a ligação exclusiva de um sexo com o espiritual. Talvez eu ficasse mais feliz se a autora escrever de maneira rasteira e se concentrasse em comparar as sociedades “padrão” e de Inverno.

Então, apesar de um cenário bastante interessante no que se refere às pessoas, mas pouco desenvolvido na questão do clima, não consegui manter-me entusiasmado no trabalho tão elogiado.

A mão esquerda da escuridão, Ursula K. Le Guin, tradução de Susana L. de Alexandria. Aleph, 2014, 2ª edição. ISBN 978-85-7657-184-1.

Mangá: All you need is kill (2015)


[Trama]
Alistado sem experiência para combater uma invasão alienígena, jovem soldado descobre que ao morrer em no campo de batalha retorna sua consciência com as memórias intactas para seu corpo, alguns dias antes. É o loop infinito de morte e ressurreição, dor e renascimento.

Após choque inicial usa a seu favor a habilidade e desenvolve um treinamento que permite fazer a diferença na guerra. Algum tempo depois encontra uma jovem em posição semelhante à sua e pretendem, trabalhando juntos encerrar a guerra.

[Opinião]
Ótimo mangá publicado em apenas dois volumes em fins de 2014 e início de 2015, All you need is kill é muito bem desenhado e extremamente violento. Se a primeira parte é empolgante, com um crescendo constante focado no treinamento do soldado Keiji Kiriya e sua caracterização, a segunda centrada na sua parceira, Rita Vrataski não é tanto, especialmente quando passa a traçar um motivo para os loops e como acabar com eles e junto com a invasão. Fica extremamente técnico e pouco crível.

A principal falha da história é sobre os vilões, os mimetizadores. Criaturas descaracterizadas, sem moral, sem sentimentos, sem personalidades, praticamente bidimensionais. Existem para atacar e morrer e justificar parte da trama. Em alguns momentos lembram os marcianos de Guerra dos Mundos assim como a raça do pai de Moonshadow.

Em vários momentos a equipe de arte cria painéis com Keiji e Rita lutando contra os mimetizadores em suas armaduras e cada qual com um enorme machado que evoca o melhor que havia em séries de sci-fi e fantasia como Heavy Metal e (acredite!) A espada selvagem de Conan. Noutros lembra a vasta tradição nipônica de humanos vestidos em armaduras contra alienígenas e suas batalhas extenuantes.

Ainda assim é uma história de guerra e sci-fi acima da média.

All you need is kill, 2 edições, JBC Editora, 2014 e 2015. História de Hiroshi Sakurazaka, storyboards de Ryosuke Takeuchi, ilustrações de Yoshitoshi Abe e arte de Takeshi Obata e equipe.

Coleção Histórica Marvel, Os Vingadores #4: Ultron (2014)


[Trama]
Em quatro oportunidades os Vingadores e seus aliados enfrentam o androide Ultron.

Na primeira os Vingadores e o Quarteto Fantástico são convidados para o casamento de Cristalys e Mercúrio, ela uma inumana e ele um mutante, filho de … alguém! A história em duas partes foi publicada em The Avengers #127 e Fantastic Four #150 e, se não empolga enquanto enfrentamento entre as equipes e o Ultron-7, ao menos dá um ponto final para a trama do coma de Franklin Richards.

Três anos depois em 1.977 o robô retornaria em The Avengers #161-162 para usar Hank Pym, seu criador nos quadrinhos, para construir uma companheira a quem pretendia ser animada com os padrões mentais de Janet Van Dyne, a Vespa. Jim Shooter não é o melhor escritor da equipe e investia muito na trama de Korvac, mas consegue uma boa aventura semelhante em linhas gerais à história de A noiva de Frankenstein. Nos anos 1.970 a narrativa poderia ser dada aos leitores aos pedaços e meses depois em The Avengers #170-171, a “noiva” é ativada e há um novo enfrentamento entre a equipe e os heróis, enquanto fica evidente que há, no mínimo, mais uma aventura sendo narrada.

Para terminar em The Avengers #201-202, a noiva já tem nome (Jocasta) e colabora com a equipe que enfrenta novamente a ameça de Ultron, que agora foi reconstruído pelo Stark em função de uma sugestão hipnótica feita em seu último ataque.

[Opinião]
Sou um entusiasta da série Coleção Histórica Marvel e em especial de seu papel baxter que creio ser melhor que o LWC, exatamente pela falta de brilho – ler à noite virou um pesadelo. Mas como leitor das antigas prefiro uma publicação mais linear e não períodos tão distintos juntos. A seleção é boa, mas logo vejo que ali tem a história de Korvac, a história da Madonna Celestial, entre outras.

São boas histórias, bastante significativos para o Ultron, ainda que tenha um arco com o Demolidor na época de Atos de Vingança que ajudaria a cimentar a questão das inúmeras versões da armadura. Mas de um modo geral, a segunda série da Coleção Histórica dos Vingadores que trouxe Warlock, Thanos, A Guerra Skrull-Kree e esta edição é uma surpresa agradável para os leitores. Veremos qual será a próxima.

Fúria Vermelha (Red Rising)


[Trama]
Darrow, um jovem da classe operária – os vermelhos -- que trabalha para transformar Marte em habitável, descobre ser impossível ter acesso a recompensas mesmo com a produção adequada. Em seguida descobre que a semi-escravidão de sua "raça" é baseado em uma mentira: Marte já é habitável, mas somente as castas nobres tem acesso a estas áreas.

Por ter desafiado as classes superiores – os ouros – ele e a esposa são executados, mas em seu caso é parte de um elaborado plano para reconstruí-lo geneticamente e inserí-lo em uma escola exclusiva para os ouros, depois de fornecer um passado falso. Lá ele, além de conseguir boas notas, deverá se ligar a algum áurico de riqueza e prestígio incontestável de modo a que este lhe forneça as condições para continuar uma ascensão social e militar e em algum momento vingar-se.

[Opinião]
Mais um trilogia distópica com jovens que será adaptada em breve para o cinema, Fúria Vermelha é um clichê após o outro. Lembra, por demais, as escolas de magia de Harry Porter e a luta dos jovens de Jogos Vorazes. Pelo tema lembra outras obras importantes da ficção científica como Gateway, AdmirávelMundo Novo e até mesmo 1984, mas não espere nenhuma complicação.

A motivação de Darrow é fraca e todo o resto tediosamente previsível. Ele aceita ser parte do plano de Dancer por sentir a dor da perda da esposa e sentir-se traído. Acredita que ao terraformar Marte estava garantindo a sobrevivência da humanidade, uma ideia que foi imbutida na sua classe social. Ao descobrir que é uma mentira, crê que sua existência foi uma mentira.

Ao se infiltrar é previsível os momentos em que ele percebe que nem todos os ouros são maus e que foram "apenas criados daquela maneira", assim como os momentos em que se afeiçoa a alguns deles. Diálogos que remetem ao fato de que em algum momento no futuro terá que traí-los, ajudam o leitor a lembrar que já viu uma dúzia de filmes e livros semelhantes.

Se há algo de bom a ser dito em favor do livro prefiro me concentrar na ousadia da Globo Livros em lançar um livro recente – foi publicado nos EUA em janeiro de 2014 e a edição nacional é de outubro/novembro do mesmo ano. Uma editora nacional investir em literatura de ficção recente é bom, pena que seja motivado por uma futura adaptação para cinema, que em caso de sucesso, fará a série vender bem.

Fúria Vermelha (Trilogia Red Rising, livro 1), Pierce Brown, tradução de Alexandre D'Elia, Globo Livros, 2014. ISBN 978-85-250-5822-5.

Os mortos-vivos volume 13: Fomos longe demais (2013)


[Trama]
A vida em Alexandria e as escolhas de seus cidadãos. Abraham é escalado para construir os muros e assume uma posição de mando em função da covardia do líder anterior. Rick rouba algumas armas do arsenal com o auxílio de Glenn, depois se envolve em uma briga doméstica com amargas consequências. Glenn sai para buscar antibióticos e de volta tem que enfrentar o distanciamento de Maggie. Michonne depois de uma tentativa falha de relacionamento com Morgan, assume como “agente” e tem que deter Rick e por algum juízo nele. Andrea se enamora e se torna atiradora de elite de uma torre de vigilância. Carl não se sente bem com a ideia de falhas de seu pai e o recrimina em vários momentos.

Eles enfrentam a chegada de um grupo de desconhecidos armados e momentaneamente vencem. Douglas questiona sua liderança e praticamente a entrega à Rick.

[Opinião]
O décimo terceiro volume reúne as edições The Walking Dead #73-78 e mais uma história curta para o Free Comic Book Day de 2013. É uma trama política acima de tudo. O quê os personagens são e fazem e como Alexandria é importante para eles e até que ponto eles irão para proteger a cidade.

A interação entre os personagens é importantes para a trama e faz bem ao desenvolvimento. Pessoalmente acho um pouco arrastado.

De resto a ideia dos andarilhos atraídos por tiros, ou seja, a horda conceito cimentado nos últimos dois anos, mas não visto em sua totalidade ainda, continua a ter espaço, ainda que ninguém cite neste volume as dificuldades motoras dos zumbis que tinham sido citadas antes. Há também o surgimento de um novo grupo de antagonistas. Aqui os incursores são eliminados, mas sabe-se, sem sombra de dúvida que em breve haverá uma nova tentativa de contato.

Os mortos-vivos volume 13: Fomos longe demais, março de 2014. HqM Editora. Texto de Robert Kirkman, lápis e finais Charlie Adlard e tons de cinza Cliff Rathburn. ISBN 978-85-998-5979-7.

Os mortos-vivos volume 12: Cercados pelos vivos (2013)


[Trama]
Cai por terra a farsa do centro de comando em Washington: Eugene é um simples professor que lutava para parecer importante e manter-se vivo. Havia mentido para que o grupo o protegesse.

Em seguida Rick e seu grupo são recrutados para uma comunidade de sobreviventes e assim que aceitos, tem dificuldades em viver em um grupo de pessoas.

[Opinião]
Observe atentamente a página 24 deste encadernado. É um divisor de águas. Podemos dizer, sem sombra de dúvida que The Walking Dead vai do número 1 ao 67 e depois há o restante.

Não quero dizer que a série se tornará inferior. Mas o primeiro ciclo termina e a partir de agora inicia um segundo ciclo que é a reconstrução da civilização. Woodbury não era a reconstrução da civilização pois mantinha em vista o mundo apocalíptico em que vivia. Era fácil lembrar disso com sua arena e seu líder. Alexandria, nos arredores de Washington, realmente parece uma comunidade normal.

Isto é que choca! E ao leitor é um pisão brusco no pedal de freio. Nós estávamos acostumados a um outro padrão e Kirkman altera levemente as regras do jogo. Não posso dizer que gostei.

O volume reúne as edições The Walking Dead #67-72. A edição #67 é sobre a mentira de Eugene, daí para frente é chegar em Washington (eles chegam na edição #69), mas o foco é aceitar o rastreador Aaron e depois a vida na cidade.

Rick, no entanto é Rick. Convidado pelo líder de Alexandria e ex-congressista Douglas Monroe para ser um “agente” um equivalente a policial, nosso velho e desconfiado sobrevivente começa de imediato a construir planos de tomar o poder a partir do primeiro momento em que as coisas deem errado! Andrea e Glenn estão a par de suas maquinações.

Há situações em aberto e algumas fechadas. Carl e Rick conversam sobre o que motivou o menino a matar o Ben e acertam suas diferenças. Carl, tão endurecido pelos catorze meses que passou, tem dificuldades de conviver com as crianças da comunidade. Teme que este período no conforto vá amolecer o grupo. O mesmo temor compartilhado por Abraham, Rosita e Andrea.

A questão da pouca ameaça dos zumbis volta novamente – na página 12 – quando Glenn diz que bastava empurrar o zumbi para fugir dele. Nos últimos três encadernados esta trama secundária tenta estabelecer um novo nível de risco para os mortos-vivos. Seriam perigosos apenas em grandes grupos e em ataques repentinos. O risco agora são os vivos. Definitivamente!

Uma das situações em aberto se referem à comunidade. Há uma clara disputa de poder e já houve uma ovelha negra – Davidson. Nem todos estão realmente felizes com o fato de um grupo de doze pessoas ser inserido em uma comunidade de quarenta. É uma questão estratégica. Uma dúzia de pessoas unidas podem tomar o poder. Outra questão é que o arco é focado na comunidade, na chegada, na ambientação, mas pouco sobre como eles vivem e o quê fazem os homens armados fora da comunidade. Rick inclusive nota isto ao comentar com Andrea: “Você deu uma boa olhada nessas pessoas? Eles mandam os mais perigosos deles lá fora para trabalhar na construção de muros todos os dias. Se algum dia tentarem nos expulsar, só precisamos tomar esse lugar e fazer dele nosso.

Mas o quê virá pela frente será uma segunda página quando comparado ao período em que eram apenas nômades enfrentando zumbis e garantido a sobrevivência edição a edição.

[Em tempo]
Há uma dúvida sobre a data exata. A dúvida não é razoável para mim. A série não faz menções a alguns apetrechos tecnológicos atuais, mas como foi citado um gameboy em um dos episódios anteriores, é plausível que se passa após a segunda metade dos anos 1.990. Neste arco Douglas cita a internet como local de informações, o quê ajuda a cimentar que a série se passe neste intervalo de tempo, após o surgimento e quando a rede mundial já havia recebido este papel de informativo e ampliador de fuxico.

Então é também plausível que as pessoas tenham relógios digitais que tenham baterias que duram dois, três ou quatro anos. Se Rick e seu grupo estão errando a catorze meses é possível que alguém tenha um relógio desses, ou que seja encontrado e confirme a data. Diálogos que reforçam que todos não sabem com precisão a data me entristecem. Outro detalhe é que se há painéis solares em Alexandria que permite o uso de eletricidade. Então também é plausível que alguém tenha trago um computador para utilizar nos registros. A bateria que alimenta as placas-mãe não teria se esgotado em catorze meses.

Se a preocupação é sobre um pulso eletromagnético – estamos extrapolando – há sempre a memória de Alfred em The Dark Knight Returns (1986) e confiando no seu relógio de pulso. Estes relógios mais antigos não necessitavam de baterias.

Insistir que não se sabe o dia é meio que incômodo. O ser humano tem uma necessidade de saber exatamente onde está e que dia é. Acho, inclusive que haveria um grupo de sobreviventes empenhado em encontrar o maior número de relógios para determinar o dia e hora exata. Mas o autor não pensa assim.

Os mortos-vivos volume 12: Cercados pelos vivos, junho de 2013. HqM Editora. ISBN 978-85-998-5968-1. Texto de Robert Kirkman, lápis e finais Charlie Adlard e tons de cinza de Cliff Rathburn.

Os mortos-vivos volume 11: Sob a mira dos caçadores (2013)


[Trama]
Seguindo para Washington o grupo de sobreviventes liderado por Rick Grimmes vê-se com tensões internas quando um dos gêmeos mata o outro e eles sabem que há uma decisão difícil a ser tomada. Do nada surge o Padre Gabriel Stokes e o grupo passa a ser perseguido por caçadores nas sombras, que capturam Dale e se revelam canibais!

O grupo terá que resgatar o colega e vingar-se caso necessário!

[Opinião]
Novamente todo o cansaço que pode haver quando se pensa racionalmente sobre a série se vai após a leitura deste arco. Esta é a melhor edição desde o volume 2 da série! O quê faz isto? Um conjunto de fatores. Primeiro Rick volta para a liderança, que ainda é um coletivo e ele dá espaço para todos partilharem do peso das decisões. Segundo, Kirkman ousa tocar em pontos espinhosos. E vários!

Primeiro sobre a loucura juvenil, pois Ben mata Billy, mas parece não saber o quê fez. Como saber como o apocalipse zumbi afetou o menino? Diante do quadro eles conversam sobre matá-lo, mas ninguém quer fazê-lo, especialmente Dale e Andrea que se recusam simplesmente a discutir a questão. A frieza das páginas que mostram os diálogos sobre o futuro do garoto são um show à parte. Mas alguém tem que tomar a difícil decisão. E alguém inesperado toma!

Um padre que se manteve protegido em sua igreja enquanto seus fiéis morriam pelo lado de fora é um detalhe sombrio que marca a crueldade do texto. Mas o detalhe de mestre são os caçadores canibais, covardes, incapazes de lutar, que primeiro mataram as crianças de seu próprio grupo!

O momento em que o leitor se dá conta do que aconteceu com Dale é chocante, e mesmo diante do festival de atrocidades que já vimos na série, temos um choque que permanece nítido quando se pensar no personagem. A trama é muito bem desenvolvida e, ao fazer opção por caçadores covardes, os autores deixam subentendido que em algum momento poder ser que eles encontrem caçadores que não sejam.

O sofrimento de Andrea, que perde os gêmeos, a quem junto com Dale adotou deste o início da série e o próprio companheiro é digno, tocante. Devo lembrar que do grupo inicial restam apenas Rick, Carl e Andrea que junto com a popular Michonne parecem serem intocáveis. Esta, por sinal, Kirkman poupa neste ano (os volumes 10 e 11 correspondem a um ano de edições da série mensal), ainda que comece a demonstrar um interesse em Morgan.

Há algumas dicas sobre o futuro. Kirkman busca mostrar Eugene como um deslocado em um determinado momento observando bobamente um encontro sexual entre Abraham e Rosita. Em outro ele surge, com conhecimentos genéricos pouco úteis, mas novamente parece ter algum conhecimento científico quando observava uma falta de habilidade motora nos zumbis. Aqui um zumbi aparentemente não consegue se mover para atacar suas presas. É a segunda sequência que mostra tal detalhe.

Pelo conjunto do reunido neste volume, as edições The Walking Dead #61-66, meu interesse foi novamente renovado e percebi que os autores poderiam ousar um pouco mais e eu continuaria acompanhando – ao menos os próximos volumes. À medida que alguém cai fica-se com a curiosidade mórbida sobre como cairá o próximo.

Os mortos-vivos volume 11: Sob a mira dos caçadores, março de 2013, HqM Editora. Texto de Robert Kirkman, lápis e finais de Charlie Adlard e tons de cinza de Cliff Rathburn. ISBN 978-85-998-5965-0.

Os mortos-vivos volume 10: O que nos tornamos (2012)


[Trama]
A viagem para Washington continua e a tensão cresce. Maggie tenta o suicídio pela perda da família. Salva do enforcamento por Glenn, Abraham decide matá-la antes que se torne um andarilho, dificultando a possibilidade de salvá-la. Ele briga com o grupo e Rick tem que ameaçá-lo com uma arma. O clima não fica amigável entre eles.

Pouco à frente, Rick e seu grupo se aproximam de sua cidade de origem e ele decide retornar com Carl e Abraham para resgatar algumas armas, mesmo sem confiar no sargento. Lá encontram Morgan, um dos primeiros sobreviventes da série – lá do primeiro encadernado.

Apesar de fortes diferenças de opinião Abraham e Rick se unem e no retorno se deparam com uma horda. Conseguem fugir e chegar a tempo de avisar ao agrupamento sobre o ataque. Dale, que havia encontrado uma nova fazenda, onde acredita ser possível viver algum tempo, fica insatisfeito com a nova fuga.

[Opinião]
Publicado em outubro de 2012, exatamente quando a série de TV baseada nos quadrinhos retomava para a terceira temporada, O que nos tornamos reúne as edições The Walking Dead #55-60. As edições que compõem o encadernado eram do momento em que a série completou seu quinto ano de publicação nos EUA, mas atualmente havia uma diferença de cerca de quatro anos em relação ao Brasil – mais ou menos 50 edições, sem muita precisão. Na capa da edição #56 americana temos um shot do grupo atual: Rosita, Abraham, Michonne, Eugenne, Maggie, Glenn, Andrea, Billy, Dale, Ben, Rick, Carl e Sophia. Falta apenas Morgan que entraria até o fim do encadernado.

A trama é fortemente centrada na tentativa de Rick em se recuperar da perda da esposa e da filha. Por isto dá espaço para uma narrativa de enfrentamento contra Abraham e, na extensão, foca nos enfrentamentos entre os personagens. Em um momento Michonne fica feliz que Rick tenha recuperado a iniciativa, mesmo que o próprio ainda não tenha se perdoado.

Abraham narra a sua versão da perda da família. Ele e a família se uniram a um grupo de sobreviventes do bairro. As mulheres foram estupradas coletivamente e quando teve a oportunidade o sargento matou os culpados. A família assistiu e ficou com medo dele. Decidiu ir embora. Abraham os seguiu e os encontrou mortos por zumbis. Abraham se apresenta com um personagem frágil quando na intimidade e em envolvido em um romance com Rosita – que ainda não mostrou exatamente a que veio e é certamente a personagem mais estereotipada da série, algo como “a chicana namorada de militar”. Eugene parece ter algum conhecimento e nota o curioso estado de um zumbi sem energia para se arrastar e atacar – este detalhe não é aprofundado mas Kirkman faz questão que alguns personagens concordem. Mas Andrea não acha o mullet do cientista convincente…

Finalmente a teoria da horda – um grupo de zumbi andando a esmo atraídos um som – é validada. E retornaria algumas vezes na série.

De resto a tentativa de suicídio de Maggie, a reação de Sophia que tinha a garota como mãe, o comportamento bizarro de Ben e Billy – os gêmeos, e a insatisfação de Dale em mudar-se novamente. Ele responsabiliza Rick por isto. Pode ser a reação natural de um velho cansado e ranzinza ou pode ser o início de um ódio maior. Só o tempo e Kirkman dirão!

No entanto, passa a ser uma constante a questão da fuga: fugiram das cidades, da fazenda de Hershell, da prisão, estão nas estradas. Eles sempre estão fugindo. Talvez em breve decidam que existe um lugar em queiram ficar em permanente. Que vala a pena cercar e chamar de seu.

Os mortos-vivos volume 10: O que nos tornamos. Texto de Robert Kirkman, lápis e finais de Charlie Adlard e tons de cinza Cliff Rathbur. HqM Editora, outubro de 2012. ISBN 978-85-998-5956-8.