Just a dream: Wolverine

Anos atrás quando a Editora Abril publicou a série The Savage Dragon no Brasil, o criador da série Erik Larsen explicou que criou um concurso onde os leitores ofereciam um design e uma história básica para um personagem novo e o prêmio que caberia ao vencedor era aparecer na revista. Algo como The Savage Dragon versus [adjetivo] [nome do vencedor].

Larsen disse ao fim do concurso, que ficou preocupado pois inconscientemente poderia reter mais detalhes que o necessário e se apropriar inadequadamente de alguns daqueles personagens que ele teve contato. Ele diz que alguns deles realmente tinham plots semelhantes a ideias que ele já tinha concebido para serem utilizadas no futuro.

Há dezenas de casos na indústria de quadrinhos de personagens semelhantes. Não são os X-Men muito semelhantes à Patrulha do Destino – aberrações e um professor em uma cadeira de rodas? Não é o Quarteto Fantástico semelhante aos Desafiadores do Desconhecido? Thanos não se parece fisicamente com Darkseid? Ambos não tem motivações semelhantes? Isso sem contar as inspirações explícitas como Cavaleiro da Lua, Esquadrão Supremo e Sentinela (Sentry) – revisando o parágrafo fiquei com a impressão que só a Casa das Ideias copia (e melhora, em alguns casos) a Divina Concorrente, mas no momento continuo a não lembrar inspirações em caminho inverso.

O detalhe que a matéria “The case of Marvel's First Wolverine: a look at the mysterious creation of Marvel's most popular mutant!” de John Cimino em Back Issue #76 (outubro/2014) traz à tona é que houve um outro “Wolverine” na empresa, resultado de um concurso na FOOM Magazine para criar um personagem no estilo Marvel. O ganhador foi o personagem Humus Sapiens de Michael A. Barreiro que realmente apareceu em uma revista Marvel – Thunderbolts #55 de 2001, 28 anos depois do concurso!

Um dos concorrentes foi Andy Olsen que apresentou o seu “The Wolverine” na FOOM #02 (verão, 1973) que é descrito por Cimino da seguinte maneira “O personagem parece ser resultado de algum estranho experimento de alta tecnologia, tem uma estrutura de ossos de metal sob a pele, e, mais interessante, tem um fator de cura”.

Roy Thomas, famoso escritor e editor, atualmente responsável pela revista Alter Ego publicada pela TwoMorrows que também publica Back Issue, foi o responsável pela criação do Wolverine que nós conhecemos. Sua preocupação, diz no artigo, era ampliar as vendas das revistas Marvel no Canadá. Decidiu criar um personagem canadense e fez questão que o escritor que assumisse a empreitada ressaltasse isto na história. Foi Thomas que decidiu qual animal seria a inspiração do personagem e que este deveria ser “baixinho”.

Quem aceitou o trabalho foi Len Wein (texto) e Herb Trimpe (arte), este último baseando-se em um design de John Romita Sr. Wolverine surgiu no último quadro de The Incridible Hulk #180, sendo a edição seguinte de novembro de 1.974 a sua primeira aparição completa. Thomas admite que viu todos os números publicados de FOOM e que pode ter sido influenciado subconscientemente (ele não faz ênfase do PODE, mas eu faço). Wein diz que não, não se recorda de ter visto o Wolverine da FOOM e que por isto não foi influenciado em sua criação.

Mas não é esta a impressão que Andy Olsen passa. Hoje com 57 anos e designer gráfico, dá a entender em seu depoimento a Cimino que o personagem famoso tem como ponto de partida o personagem que ele criou para o concurso. Ele diz que quando enviou a arte para a FOOM seu tio, um artista estabelecido, o criticou informando que as empresas roubavam ideias e não pagavam nada aos fãs que haviam colaborado. Olsen acrescenta que se afastou dos quadrinhos, mas anos depois quando na faculdade passou em um stand de quadrinhos e viu Wolverine nos X-Men. Comenta então, com notada amargura “Ele está nos X-Men! (…) Aquilo me chocou (…) meu tio estava certo”.

Curiosamente a edição #2 da FOOM Magazine é constantemente oferecida como uma visualização do “primeiro protótipo do Wolverine” no mercado de edições antigas e vale cerca de US$ 400,00!

Alguém tem uma cópia aí?
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Este post é inspirado na matéria “The case of Marvel's First Wolverine: a look at the mysterious creation of Marvel's most popular mutant!” de John Cimino em Back Issue #76 (outubro/2014). A revista está a venda em formato on-line e print edition no site da TwoMorrows.
E eu não entendo por que há um certo interesse em ligar Gládio (Steel) ao Capitão América e tão pouco em ligá-lo à Wolverine. Ligue os pontos.

Star Trek: The Mirror Universe Saga


Muitos anos atrás quando conheci os quadrinhos importados Star Trek: The Mirror Universe Saga foi um dos primeiros encadernados que vi no catálogo. Gente como isso tem tempo!

Estes dias li a história. Não é muita coisa e tem de ser colocada demais no contexto. Trinta anos atrás, em 1.984 a DC Comics publicava uma série mensal de Star Trek. Em 1.982, 1.984 e 1.986 a Paramount lançou A ira de Khan, À procura de Spock e De volta para casa, filmes que davam sequência a uma longa jornada iniciada na TV e filmes considerados por muitos como um extrato do que há de melhor na cine-série.

A série em quadrinhos estava sendo editada antes e depois do terceiro filme (À procura de Spock). A nave Enterprise é destruída neste filme. Kirk tem problemas com a Federação dos Planetas Unidas que, no cinema seriam resolvidos no quarto filme – não há intervalos real entre estes filmes, apesar de a produção ter dois anos de diferença.

Mas nos quadrinhos a DC Comics e o autor Mike W Barr tinha uma equipe da Enterprise sem uma Enterprise durante meses. Decidiram narrar uma história “alternativa” onde a versão do Universo Espelho inicia uma invasão a este universo.


Publicada originalmente como “New Frontiers” em Star Trek, DC Comics, 1984 series #09 (dezembro/1984) – #15 (junho/1985), com um epílogo na edição #16, vemos o ainda Almirante Kirk perceber que seu destino na Federação dos Planetas Unidos não seria agradável. Ainda com a Ave de Rapina klingon, ele é detido e levado prisioneiro pelo Capitão Styles na USS Excelsior, que é invadida pela tripulação da Enterprise do Mirror Universe. Neste momento achei que W. Barr substituiria uma Enterprise pela outra e continuar as tramas nos quadrinhos com uma nave de qualquer jeito.

A trama, no entanto é confusa e em alguns momentos o corte entre Excelsior e Enterprise confunde o leitor visto que a diferença entre os universos é basicamente a barba de Spock e o logo do Império – o uniforme parece ser em um tom mais escuro, mas com a colorização da época isto não é certo. Confesso que “comi pança” umas duas ou três vezes e tive que escanear atentamente a página em busca do logo da Federação ou do Império. Tom Sutton, artista da série, em minha opinião deveria ter construído um visual distinto para o Império – mas não há maneira de garantir que a opção não tenha sido resultado de interferência dos licenciadores, mesmo que W. Barr diga em Back Issue #5, agosto de 2004, que o relacionamento era bom, pois são mais famosas as limitações que Peter David sofreu nas mãos dos licenciadores.

Kirk consegue retomar a Excelsior rompe a barreira dos universos e tenta destruir a invasão por dentro, passando por sua contraparte. Lá é cooptado por um movimento rebelde que tem David Marcus – seu filho, recém-falecido no filme – como líder!

Além disso o conflito entre os Spock's, que passam a defender um objetivo comum, e a associação do descoberto e fugitivo Kirk com o Império Klingon e o Império Romulano são itens que mantém o interesse na agradável “mas-não-leve-a-sério-demais” história. No epílogo Kirk burla novamente os canais para continuar a ter uma nave e Spock recebe o comando de uma nave científica.

Vale lembrar aquilo que disse no review do primeiro arco (aqui): a cronologia não tem efeito nenhum no cinema. O quarto filme se passa IMEDIATAMENTE depois do terceiro e todas as aventuras dos quadrinhos tornaram-se “ElseWorlds” - por falta de um termo melhor. Mas não são assim todas as histórias?

Texto de Mike W. Barr, arte de Tom Sutton e finais de Ricardo Villagran. Com este arco W. Barr encerra sua participação na série dedicando exclusivamente a The Outsiders (Os Renegados, anteriormente Batman and the Outsiders) e Detective Comics. Nesta última, além de uma passagem com Alan Davis que está sendo reeditada agora no Brasil pela Panini, Barr escreveu Ano Dois. Apesar dos adendos posteriores em Zero Hora (1994) e Crise Infinita (2004) que irritaram os fãs de cronologia, Ano Dois é uma boa história presa em uma época de quadrinhos sérios e violentos.

Star Trek (DC Comics, 1984 series) #05-08: A Origem de Saavik


Nada muito interessante aconteceu nos seis meses e quatro edições seguintes – a série teve um gap entre as edições #07 e 08. 

Qual o motivo do gap

A versão em quadrinho do filme Star Trek III: A procura de Spock que estava para ser lançado e já trazia modificações importantes para a Enterprise e sua equipe. Assim Mike W Barr ficou no básico criando tramas que repetiam padrões da série de TV original e focando em um personagem “estranho” e “quase” seu – a Saavik.

Então na edição #05 trouxe um conto de violação da primeira diretriz. Aqui um conhecido de Kirk cai em um planeta e se passa como deus em um mundo de seres semelhantes à grandes ratos. Nada de novo, portanto.

A edição seguinte (#06) traz uma aventura onde um embaixador é ameaçado por um transmorfo, que é sua filha! Ambas as tramas caem bem mesmo na série de TV dos anos 1.960, pois não oferecem risco algum, pois tratavam de diferenças políticas ou religiosas.

Este ciclo termina com as edições #07 (ago/1984) e #08 (nov/1984) – no gap foi lançada a adaptação em quadrinhos do terceiro filme em uma edição especial – que traz A origem de Saavik, uma menina meia romulana, meia vulcana que, encontrada abandonada pelo Sr. Spock é criada pela família do oficial de ciência da USS Enterprise


Em Vulcano ela se liga a Xon e, adulta e servindo na Enterprise, passa a sofrer os efeitos do Pon Far, exatamente quando o “noivo” está infiltrado em uma missão no Império Romulano, portanto inacessível para resolver o problema do desejo da moça.

A arte da edição #07 é de Eduardo Barreto, mas o restante tem Tom Sutton no lápis. Barreto não era exatamente estranho à ficção científica, visto que foi o segundo artista da série Esquadrão Atari.

Sabendo do destino de David Marcus, o filho de Kirk, Mike W Barr o introduz na série em quadrinhos para uma (última) viagem. 

Ainda que não seja a preocupação de W Barr a narrativa consegue “contar” a história de Saavik sem revelar nada. Na história ela não tem lembranças de sua família, então pode ser filha de qualquer casal que estivesse na colônia romulana onde foi encontrada. 

Há, no mínimo, um momento duvidoso: ao tentar criar um clifhanger para o próximo número, Barr põe a gigantesca Enterprise armada e 100% ativa sob a mira da pequena nave da febril Saavik que ameaça destruir a nave da Federação!

Sabe de nada, inocente!

Devo confessar que o arco seguinte “Novas Fronteiras” (Star Trek 1984 series, DC Comics #09-16) em oito partes é muito interessante. Fique conosco foi retornaremos ao assunto.

Star Trek (DC Comics, 1984 series) #01-04


Spock está morto! Longa vida a Spock!

Os quadrinhos que adaptam séries de TV e filmes sempre sofreram por ser um produto marginal, não só pela mídia sempre mal vista, mas por terem uma linha narrativa própria e distinta do produto original. Chama-se esta linha de “Universo Expandido”, mas sabe que seu valor é exclusivo para a mídia derivada para a qual foi projetado. Desconheço a influência dos quadrinhos e dos livros nas séries originais – mas, lembre-se, desconhecer não significa que não exista.

Fica-se com este gosto quando leio o quarteto inicial de histórias de Star Trek (DC Comics, 1984 series). A trama passa-se após Star Trek II: A ira de Khan (1982) onde Spock sucumbiu. Para substituí-lo a também meia vulcana/romulana Tenente Saavik assume como oficial de ciências. Evidentemente Kirk passa a exigir muito da moça e McCoy passa a tentar relativizar tudo. A surpresa termina aí! O resto e mais do mesmo, ainda que Tom Sutton e Ricardo Villagran tenham um traço belíssimo e adequado ao propósito da série.

Na trama escrita por Mike W. Barr Kirk pede para reassumir o comando da Enterprise, sem, no entanto, perder a patente de almirante. A primeira missão é um conflito com klingons que estão explorando uma tecnologia de buraco de minhoca e fazendo ataques repentinos. A trama leva a uma guerra declarada entre klingons e a Federação, que na verdade, estão sendo manipulados por criaturas semideuses apresentadas na série clássica, que teve um gigantesco compêndio de tais criaturas. Rumando para Organia, Kirk se alia ao klingon Capitão Kor e enfrentam excalbianos que desejam descobrir quem era mais forte: o bem ou o mal.

Apesar de uma boa dose de ação e da criação de vários personagens secundários bem críveis e divertidos, como um alferes herdeiro de nativos americanos (Bearclaw) ou um klingon amante da paz (Konom), mas existentes só nesta versão do universo expandido a trama é muito semelhante aos conflitos existentes na série clássica e não me convenceu. Muito “semideuses querendo descobrir a verdadeira natureza do mal”.

Curiosidade: Em uma edição seguinte pela pureza da época os autores permitem que McCoy examine Konom para descobrir o quê há de errado com ele. Seria o mesmo que examina um homossexual para descobrir o “quê há de errado”. Não há nada! É uma opção!

Como o editor da série é Marv Wolfman cabe ao companheiro George Pérez as capas destas quatro primeiras edições. 

Curiosidade: Wolfman foi o responsável pela adaptação em quadrinhos do primeiro filme ainda pela Marvel Comics. Após as três edições de adaptação Mike W. Barr foi o primeiro roteirista da série da Casa das Ideias.

15 Hq's para republicar: A morte do Capitão Marvel

15 Hq's para republicar: Dreadstar de Jim Starlin

15 Hq's para republicar

Comics Star Wars vol 1: Clássicos 1



A editora Planeta DeAgostini se propôs a publicar uma coleção de 70 volumes de histórias selecionadas das adaptações em quadrinhos da cine-série Star Wars. Bom. 70 volumes x 11 histórias por edição é 770 aventuras, mas nem todas em o formato de 22 páginas, então é saudável levar a conta para 700 histórias. É muito material, mesmo para universos ficcionais mais antigos como a Marvel Comics ou a DC Comics.

A editora inicia com o trabalho da Marvel Comics, publicado originalmente a partir de 1977/78 na esteira do lançamento do primeiro filme. Bom. E decide utilizar como fonte a série de encadernados Star Wars: A long time ago, onde a partir de 2.002 a editora americana Dark Horse reeditou a série, recolorindo-o – ironicamente a partir de 2.015 a Marvel reeditará algumas séries da Dark Horse.

A edição reúne a adaptação do filme Star Wars (#1-6) com roteiro de Roy Thomas e arte de Howard Chaykin e a arte-final de Steve Leialoha, Rick Hoberg e Bill Wray. Nada de novo, exceto o encontro entre Han Solo e Jabba, the Hutt, com um visual bem distinto. A cena, como se sabe, foi excluída do filme original, mas aqui aparece outra versão de Jabba, sendo portante a primeira a aparecer para o público. Uma curiosidade somente, já que Jabba sempre será a criatura que vimos em O retorno de Jedi.

Depois temos Novos Planetas, novos perigos (#7) e as três edições seguintes (Os oito campeões de Aduba-3 - #8; Confronto em um mundo desolado - #9 e O behemoth do mundo subterrâneo - #10) que traz roteiros de Roy Thomas, Roy Thomas & Don Glut (#10) e arte de Howard Chaykin com Tom Palmer e Alan Kupperberg. A la Os sete samurais, Han Solo tem o pagamento que recebeu por auxiliar a Rebelião roubado – pagamento com o qual pretendia pagar Jabba, diga-se de passagem – e vai para o mundo agrícola de Aduba-3 onde é contratado para proteger uma vila, constantemente ameaçada por arruaceiros que roubam a produção agrícola local. Alia-se a um grupo de desajustados de segunda classe. A trama muda um pouco na edição #10 quando é inserido a ideia de um monstro – o behemoth – que anteriormente protegia a aldeia e agora sai do controle.

Este quarteto de histórias, visivelmente inspirado em Os sete samurais ou no western Sete homens e um destino é a primeira história do Universo Expandido de Star Wars, visto que as edições #1-6 eram apenas uma adaptação em quadrinhos do filme. Como curiosidade o coelho Jaxxon (criado para emular Rocket Raccon?) e o pretenso jedi Don-Wan Kihotay, um velho tido como tolo ou louco que defende ser um dos jedis sobreviventes e tem um sabre de luz! E a história do behemoth lembra uma meia dúzia de aventuras de espada & magia com o qual Thomas tinha muita intimidade, o suficiente para evitar o clichê do xamã tido como louco, mas que não era não louco assim.

Em Busca Estelar! (edição #11) com roteiros de Archie Goodwin e arte de Carmine Infantino & Terry Austin, retornamos a atenção à Luke Skywalker e Leia Organa. Em uma trama secundária das edições #8-10, Luke vai em busca de uma nova base, visto de Yavin foi descoberto e assim que Darth Vader chegar à sede do Império certamente haverá um ataque. Ao encontrar um mundo e fazer uma transmissão o sinal de Skywalker se perde e Leia, desesperada e levemente apaixonada, vai em sua busca. A edição começa com Solo saindo de Abuba-3, sendo recapturado pelo mesmo pirata que roubou seu pagamento – Jack Escarlate – e encontrando Leia prisioneira.

Leia preocupado com Skywalker, fornece informações que os levam à Drexel, onde Luke tenta sobreviver a um monstro marinho, enquanto os amigos se aproximam.

[Opiniões]
Indicado apenas para fãs 1) de Star Wars; 2) da Marvel Comis; ou de 3) quadrinhos da Era de Bronze, a coleção é uma boa maneira de resgatar este material em geral inédito no Brasil – teve algumas edições publicados pela Bloch e algumas pela Editora Abril.

Mas advirto que é um material que envelheceu mal. Diferente de um Strange Tales ou um Jungle Action, apenas para ficar em material da Marvel Comics, Star Wars é uma leitura que hoje desperta apenas curiosidade e não desejo. A arte de Chaykin é desleixada e alterna vários quadros bem construídos, com momentos poucos inspirados. Quando Tom Palmer chega à arte-final fica-se, como sempre, com a impressão de que o artista é John Buscema.

A edição termina com a primeira mudança de equipe de produção, indo para as mãos de Archie Goodwin e Carmine Infantino. Goodwin foi um dos responsáveis pela adaptação para as tiras de jornais (que não sei se fará parte desta coleção), que volta a trabalhar com os personagens juntos, mas sem o Império como incômodo principal – aqui são os piratas os vilões – têm-se a impressão de que naquele primeiro momento os quadrinistas não tinham entendido realmente quem era o vilão da história.

Devo lembrar que a trama geral da busca de uma nova base para a Rebelião é a mesma premissa da atual série Star Wars: Legends, recém-iniciada pela Panini.

Repito: apenas para fãs!

Star Wars: Legends #01


Depois da Bloch, da Abril Jovem, da Pandora, da Ediouro, da On Line Editora e da Planeta DeAgostini é a vez da Panini Comics publicar quadrinhos Star Wars no Brasil. Fica a ressalva de que a DeAgostini está iniciando sua publicação e por problemas de distribuição é capaz de alguns leitores entenderem a ordem de maneira diferente, mas será nesta série de encadernados a estreia de várias histórias editadas nos EUA no início dos anos 1.980 pela Marvel Comics.

Ao traduzir a última série Star Wars da Dark Horse, iniciada em 2.013 a Panini apenas evidencia o cansaço da série em quadrinhos com os personagens de George Lucas. A Dark Horse ousou em diversos momentos, publicou quadrinhos em diversos períodos seja 4 milênios antes ou 150 anos depois; publicou quadrinhos centrados no Rogue Squadron e histórias de mercenários, das Guerras Clônicas e apresentou várias novas visões como Star Wars: Invasion e Star Wars: Legacy. No fim ficou redundante e voltou para o básico, ou seja, o mesmo tema que foi tratado em Star Wars #11 da Marvel Comics lá em 1.978, a busca de uma nova base para a Rebelião depois da descoberta de Yavin-4.

Vale relembrar que o período da rebelião já foi tema de ao menos três séries anteriores – Star Wars da Marvel, Star Wars da Dark Horse e Star Wars: Rebellion da Dark Horse. Retornar a este tema para “oferecer uma nova visão” é como tirar água de pedra. Rende um TOP 10 da distribuidora Diamond, mas inevitavelmente a série cairá – atualmente está em torno da 80ª posição, mas vendas não tem relação com qualidade, lembre-se. Por sinal esta série também já se encerrou após 20 edições e o título terá um reboot na próxima editora.

Brian Wood & Carlos D'Anda oferecem uma boa história, melhor ainda para neófitos e leitores/expectadores que conhecem a série Star Wars pelos produtos mais recentes como Clone Wars, a série animada. É bom? É! Mas para quem já leu alguma coisa que se passa no mesmo período fica cansativo e incômodo o fato de a série não progredir.

Mas eu descobri algo: os consumidores é que não gostam deste progresso! Querem ler histórias com os mesmos personagens e situações. É por isso que Peter Parker ainda é um coitado sem dinheiro e cheio de responsabilidades. É por isso que a série Star Wars daqui a 20 anos ainda narrará histórias que se passarão ainda no período dos episódios IV, V e VI.

Star Wars #1 e 2 (janeiro e fevereiro/2013) se passa meses depois da Batalha de Yavin (Star Wars Episódio IV: Uma nova esperança). A Rebelião necessita de uma nova base permanente, mas o Império parece ter uma especial que fornece informações de dentro do movimento. Darth Vader é responsabilizado pelo Imperador pela perda da Estrela da Morte e Han Solo é enviado por Mon Mothma em uma missão à Coruscant, sede do império!

A edição se completa com Star Wars – Dark Times: Out of the wilderness #01 (agosto/2011) de Randy Stradley e Douglas Wheatley. A série se passa meses depois do fim de Star Wars Episódio III e trata da sobrevivência de jedis após a Ordem 66, da ascensão do Império, da busca de Darth Vader pelos últimos jedis e da busca de um homem comum por sua família. A série iniciou em Star Wars Dark Times que foi publicada no Brasil pela On Line Editora. Certamente será a série que sofrerá mais com as mudanças de Star Wars Rebels pois faz uma narrativa paralela a estes acontecimentos que podem ser anulados pela próxima revisão de cânone.

O fim do Quarteto Fantástico


A Marvel Comics prova como os tempos são diferentes. A série americana Fantastic Four passou por diversos relançamentos mas suas vendas não se ampliam. Novidade?

Não! Ao longo dos anos sempre tivemos conhecimento de séries boas com baixa vendagem, a série do Quarteto apenas vem engrossar a lista. Até aí nada de novo.

A novidade é a abordagem que a Disney/Marvel está dando ao tema. Os direitos para cinema e TV do Quarteto e dos mutantes pertencem à FOX. Desde que a Marvel Studios conseguiu sucesso na administração das propriedades intelectuais da Marvel Comics, em especial com a franquia dos personagens derivados de Os Vingadores (Homem de Ferro, Capitão América, Thor e a própria série Os Vingadores) e conseguiu unir esta franquia ao enredo de construção de um universo com Os Guardiões da Galáxia, a Disney tem tentado reaver os direitos das duas franquias perdidas na época da falência da editora – Quarteto e mutantes.

Bem, ao que parece, os mutantes vão bem, obrigado! O último filme não é um primor, mas rendeu o suficiente para garantir uma sequência. Por sinal é a maior bilheteria da franquia que já chega a sete filmes, com cinco dos mutantes (X-Men 1, 2 e 3, X-Men: Primeira Classe e X-Men: Dias de um futuro esquecido) e dois do Wolverine. A FOX aproveitando a onda de novas séries para TV baseadas em quadrinhos anunciou a possibilidade de X-Men ou derivados irem para a TV! Parece que pisou no calo de alguém!

Já com o Quarteto é diferente. Seus dois filmes são mais lembrados por a) cenas refeitas para evitar comparações com Os Incríveis – há um personagem com poderes elásticos em ambos e Reed Richards teve cenas inseridas para ampliar sua relevância na trama e a importância de seu poder; b) Jessica Alba.

A FOX está produzindo um reboot que inseriu uma série de ideias estranhas quando comparadas ao material dos quadrinhos. Mas é certo que nenhum espectador de TV e cinema se importa com quadrinhos! Gotham está aí para provar isto! É uma boa série? Até o momento, sim! Excelente até, em alguns momentos. Mas é cronologicamente possível de ser encaixada na história do Batman? Não! Só para ficar no absolutamente óbvio: Montoya foi inserida nos quadrinhos graças à série de animação de Bruce Timm e só passou a atuar em Gotham pouco antes de A queda do morcego.

Isto incomoda a mim quando estou assistindo ao programa?

Não!

São universos diferentes, onde um bebe n'outro criando um processo infinito de alimentação e antropofagia de ideias. Logo, se a série de TV Gotham se estabelecer como um sucesso constante e ganhar novas temporadas, algum autor “inteligente” adaptará conceitos para os quadrinhos e revisará cronologias. Espere e verá!

Mas voltando ao Quarteto, como represália ao retorno dos direitos para produção de longas a Disney/Marvel diz que devido às baixas vendas da série mensal em quadrinhos, decidiu cancelá-la – é uma possibilidade, não um fato. Fará diferença?

Não!

Mesmo que a Marvel envie instruções para que os autores e ilustradores não se refiram ou desenhem o Quarteto e seus personagens, apenas a editora perderá. E mesmo que se resolva fazer o mesmo com os X-Men, apenas a editora será afetada.

Sim! Existe um boato em que a Marvel/Disney fará uma franquia cinematográfica com Os Inumanos e os estabeleceriam como um concorrente direto dos mutantes.

[Conclusão]
As séries em quadrinhos alcançam de 20 a 70 mil leitores nos EUA. Séries TOP 10 70 a 120 mil. Um filme alcança milhões no mundo! A Marvel encerrar seu título primordial – Fantastic Four – é a prova da incapacidade de mostrar a série da família Marvel por definição, de uma maneira interessante aos leitores.

Se a possibilidade é parar de nutrir os roteiristas da FOX com temas para serem adaptados (tolinhos!) há uma quantidade tão grande de histórias nestes 50 anos de aventuras que dariam no mínimo uma dúzia de filmes, isto apenas para ficar nas histórias de Kirby & Lee, Roy Thomas & John Buscema, John Byrne e Mark Waid & Mike Wieringo. Ou melhor, só as histórias de Kirby & Lee dariam uma dúzia de filmes!

Mas algo de bom pode surgir disto?

Sim. Se a ideia de a Marvel encerrar a série vingar, os personagens poderão ganhar novas séries apenas quando houver novas ideias, e isto é bom. Afinal histórias devem ser contadas por uma necessidade intelectual e não um cronograma de lançamentos. Em última instância uma história deve ser contada apenas quando há algo para ser contado. Se em algum momento a Disney ganhar a queda de braço sempre haverá a possibilidade de alguma série chamada, por exemplo, Fantastic Four: The Hidden Years, que hipoteticamente poderia narrar o quê aconteceu com os personagens quando não estavam sendo publicados.

Ganhará o leitor de quadrinhos?

Dificilmente, mas ao mesmo não encontrará nas bancas – ou comic shops – uma série que só o faz lembrar de como um dia aquela revista foi boa.

Mas quero ver a Marvel cancelar todas as séries mutantes!

Gateway, Frederik Pohl

No futuro a humanidade passou a colonizar mundos próximos – Vênus e Marte – enquanto a Terra está superlotada com 25 bilhões de pessoas e a fome e miséria é uma constante.

Durante a exploração de Vênus é encontrado em um asteroide (ou cometa morto) um hangar cheio de naves alienígenas, da raça denominada Heechees, desaparecida a milhares de anos. A partir daí inicia-se a exploração do espaço externo em naves que levam 1, 3 ou 5 pessoas no máximo e cujo controle não é compreensível pelos operadores. Basicamente não há garantias de retorno de cada missão e por isso paga-se bem por missão bem-sucedida e pelas descobertas. A estação é controlada por uma empresa chamada Gateway e recebe pessoas dos Estados Unidos, Brasil, União Soviética e Índia para treinamento, tentando sempre vender a ideia de que há uma necessidade urgente de conseguir uma nova tecnologia que “faça a diferença”.

Robinette BobBroadhead é o personagem principal do romance. É sob sua ótica que vemos a sua chance de vencer a miséria após ganhar na loteria e ir para o treinamento na estação Gateway – o hangar onde estão estacionados as naves. Anos depois, consultando com um psiquiatra eletrônico apelidado de Sigfrid von Shrink, Bob tenta exorcizar os fantasmas do período em que passou na estação.

Sim, Bob Broadhead teve sucesso! Mas a que preço?

[Opiniões]

Gateway lembra em muito as ficções distópicas, as ficções militares e as ficções que se passam em estações espaciais. Há algo dela em Babylon 5 e Star Trek: Deep Space Nine, séries de TV que tratam do dia a dia em estações espaciais. Diferente delas Pohl detalha as questões oferente à manutenção, despesas e parte da questão política. Ali eles estão mexendo no lixo em busca que algo que leve a humanidade para a frente e que permita a colonização do espaço. Há uma ironia fina em certo momento. Ao relatar o preço pago pela descoberta de um novo planeta ele não é tão interessante quanto o valor pago por lixo heechee, exatamente por que não é possível transporte a humanidade para ele – a não ser que se considere o transporte de quatro pessoas de cada vez, correndo o risco de a viagem não se completar por falta de combustível.

Gateway assim, oferece algo em maior profundidade: a alma humana, o desejo e a necessidade de conquistar o espaço e evidentemente o risco que envolve esta missão. Em última análise também vemos o quê toda esta pressão faz com a psique humana.

Aqui ninguém quer realizar estes feitos apenas para a glória da humanidade como em Star Trek, mas por uma necessidade econômica. Todos querem ficar ricos com os dividendos da Gateway, Inc. Mas não deixa de ser realista a maneira aprensentada: os prospectores, a Gateway e a humanidade não sabe operar as naves e cada missão é uma missão suicida! A opção é a miséria na Terra, ou Vênus, ou Marte ou conseguir a sorte grande e encontrar algum artefato valioso dos misteriosos Heechees que foram embora há milênios e deixaram para trás uma Vênus perfurada, assim como uma estação em um cometa morto e também perfurado.

Quem são os Heechees? Quais são seus objetivos? Para onde foram? Todas perguntas filosóficas demais para a grande questão: qual a missão terá a sorte grande e trará algo de tão valioso que pague bons royalties aos sobreviventes que permita abandonar aquela vida?

Gateway, Frederick Pohl, Del Rey Book, 1977, ISBN 0-345-25378-7.

The Ghost Brigades (2006) de John Scalzi

(OldMan's War volume 2: The Ghost Brigades)


Três raças – Rraeys, Eneshans e Obins – estão secretamente se preparando para atacar a Colonial Union, mas a equipe de inteligência do braço armado do empreendimento humano, a Colonial Defense Forces (CDF), utilizando a Special Forces – cujo apelido é The ghost brigades, consegue descobrir o plano e também, que um humano, Charles Boutin, um cientista da CDF, está auxiliando as raças!

Por que? Qual a motivação dele? Como ele está auxiliando estas raças? O quê ele ganha com esta guerra?

Quebrando alguns protocolos éticos, a Colonial Defense autoriza a clonagem de um ser humano vivo – Boutin havia clonado e matado seu clone para encobrir sua fuga. De posse de um sistema que permite a gravação da consciência utilizando restos da tecnologia do Consu, que Boutin foi o pioneiro na pesquisa, a CDF crê ser possível que a consciência do cientista habite o novo corpo. O processo falha e o clone é enviado para a Special Forces com o nome de Jared Dirac, indo para as mãos de Jane Sagan, que sabe que tem alguém de poderá trair a todos, como seu “pai genético” já o fez!

Lentamente emerge a consciência de Boutin. Compreendendo que a CDF é responsável pela morte da filha de Boutin, Dirac deverá escolher seu próprio caminho. Qual será seu posicionamento em relação à guerra?

[Opiniões]
John Scalzi dá uma sequência inteligente à Old Man's War, seu romance de estreia. Aqui ele se concentra em narrar o processo de construção dos membros das Special Forces: criados a partir do DNA dos mortos, a brigada fantasma não tem infância nem memórias afetivas. Nasceu, cresceu e foi preparada para a guerra. Este é seu mundo!

Scalzi não procura esconder suas fontes de inspiração e consegue manter um romance militar com uma enorme quantidade de surpresas. (Uma das minhas críticas aos romances de ficção científica militares é exatamente que é tudo bastante previsível).

É palpável as homenagens à Frankestein – explícita, por sinal, inclusive com a indicação de que os membros das Special Forces leem o livro em uma passagem. Há também uma sutil homenagem a Aliens de James Cameron. Há também dezenas de citações a vários personagens da cultura pop, que vão de Proust, a Tintin e Asterix.

Há diversas camadas de intriga e de rancor na trama. Tudo é maior do quê o leitor vê. Ao desembrulhar o pacote (não resisti a esta “piada” interna aos leitores da série) o leitor fica impressionado com a maneira como as coisas são narradas. Scalzi conta uma surpreendente macro-história sobre o futuro da humanidade através da colonização do espaço concentrando-se em micro-histórias. E não é um romance curto! A versão pocket tem 340 páginas!

Aqui, temos o questionamento ético de fazer clones dos mortos e de eles tem consciência – leia-se “alma”. Seria possível dar a “alma” a alguém? E depois uma pergunta secundária: poderia estes clones dos mortos superarem o condicionamento militar e realmente aprenderem a escolher? Afinal escolha é algo intrínseco ao ser humano. A tentação também!

Este romance retorna à personagem Jane Sagan, clone da esposa de John Perry, e mostra o dia a dia das Special Forces e suas ações para impedir a guerra, nem sempre éticas, e mesmo em uma guerra chegam a ser gritantes. Assim ele produz um romance tão saboroso quanto o primeiro. E tão misterioso. Scalzi não segue o padrão do narrador habitual de sci-fi. Ao apresentar uma raça não faz uma pormenorizada descrição do sujeito, preferindo pincelar detalhes. Agir deste modo enerva e enriquece o leitor, que pode sonhar livre e obviamente faz os sonhos dos produtores de TV, que sentem-se livres para criar qualquer coisa.

Em 2015 de Old Man's War, o primeiro romance da série, será lançado no Brasil pela Aleph e o canal Syfy deverá lançar a série de TV que adapta a trama do primeiro volume. Como “old man's war” não é um nome muito bom para uma série de TV, os releases têm divulgado que a série se chamará “The Ghost Brigades”.

Um livro essencial! Espero que a série de TV também o seja! Assim como espero que isto permite que o autor retorne à série.

The ghost brigades, John Scalzi, TOR, ISBN 978-0-7653-5406-8.

Lançamento
Título
2005
The Old Man's War
2006
The Ghost Brigades
2007
The Last Colony
2008
Zoe's Tale


O tempo e o vento, Parte 1: O continente

É impossível ler O tempo e o vento sem saborear de imediato as palavras, as métricas, as frases, os clichês e a sensação de tragédia do romance.

Fictício, O tempo e o vento é dividido em três partes O continente (publicado em 1949), O retrato (publicado em 1951) e O arquipélago (publicado em 1961-62) e narra através de seus personagens a história da formação do Rio Grande do Sul desde as guerras missionárias, passando pela Revolução Farroupilha e chegando até a Revolução Federalista na década de 1890.

Érico Veríssimo tem uma narrativa impecável e uma preocupação, se não original, ao mesmo elegante. Tolkien em O senhor dos anéis queria unificar lendas do continente europeu; Érico queria construir a história d'um canto de mundo pela ótica de sua gente humilde, simples, birrenta. Este é o povo de Santa Fé: teimoso como mula e sempre pronto para amar, guerrear e festejar.

Os dois volumes de O continente somam 800 páginas que narram sete passagens: A fonte, Ana Terra, Um certo Capitão Rodrigo, estes três no primeiro volume e A teiniaguá, A guerra, Ismália Caré estes três no segundo volume e iniciando, entrecortando as histórias e finalizando o volume, O sobrado. Pelas adaptações para TV – novela e série – e cinema é comum confundir a trama total – O tempo e o vento – com sua primeira parte – O continente. A história é maior e mais saborosa.

Há na história um sabor de Macondo, e um leve toque do sobrenatural, pincelado de forma energética do início nas visões de Pedro Missioneiro e em menor estágio nas visões de Ana Terra e de seu filho Pedro. Tão repentinamente quanto surgia o sobrenatural desaparece por completo, e poderia facilmente receber o epíteto de “realismo fantástico” - os jovens mudam o nome das coisas.

Quando o ritmo já estava bom, mas a cadência parecia que se repetiria, eis que surge o Capitão Rodrigo um homem… comum! E por isso mesmo, especial!

O que impressiona em Rodrigo Cambará não são as bravatas nem a paixão com que fazia as coisas, mas é que tudo nele tem cheiro – repito-me – de tragédia anunciada.

Homem como outros de seu tempo, Rodrigo gostava da vida, queria poucas obrigações e, no processo, uma rapariga para passar alguns momentos. Encontrou e se apaixonou por uma moça, mas nunca foi marido que preste. Seu destino é previsível e nos divertimos em ver a desgraça alheia. E nos identificamos, glorificando os momentos heroicos e lamentando os momentos por demasiado humanos. Afinal temos vergonha de nos refletirmos tanto em tal personagem.

Daí o narrador brinca novamente conosco. Cria a figura do estrangeiro Carl Winter para narrar grande parte dos eventos. Ao ver nossa história narrada por um estrangeiro entendemos qual estranho devemos ser aos seus olhos, especialmente no século XIX.

Winter não é um narrador onisciente, mas cabe a ele a narrativa de momentos importantes de A teiniaguá, A guerra e Ismália Caré, que contam a história de Bibiana Terra Cambará, seu filho Bolivar, a nora Luzia Silva e, em seguida, o neto Licurgo Terra Cambará.

Nuns momentos roubam a atenção e ganham luz própria a loucura doentia de Luzia e sua guerra muda com a sogra; noutros as figuras de Winter ou do padre Atílio Romano ambos excêntricos, ou ainda a história de fortuna e tragédia da burguesia ascendente representado ora pelos Amarais, ora por Aguinaldo Silva. Há contra este último um ressentimento tão comum contra o usurário. Já o Amarais não tem muito espaço, pois cabe a eles o papel de “vilão” e da indiferença do grande proprietário de terra avesso a mudanças. Além do ódio entre estes e os Terra Cambará.

Em certo momento Veríssimo brinca conosco novamente e faz de Ismália, apenas uma coadjuvante no máximo terciária, que surge só para complementar a narrativa do personagem principal Licurgo, o nome de uma seção da trama. Ismália Caré entra muda, sai calada mas é imprescindível à história. Para quê? Julgar Licurgo e seu caráter.

Há em Bibiana Terra Cambará, Carl Winter e em um capataz chamado Fandango um pragmatismo saboroso, próprio dos velhos. Sabendo que Bibiana foi interpretada pela atriz Fernanda Montenegro na adaptação cinematográfica recente amplia-se o interesse em ver a história vertida para cinema, ainda que se saiba de antemão o foco que o filme dá.

Há em Rodrigo, Bólivar e Licurgo uma teimosia própria dos jovens. Uma ansiedade, uma urgência. Uma humanidade!

Se, em alguns momentos é impossível não lembrar de Macondo, noutros faz-se igualmente impossível não trazer à tona em momentos febris Crime & Castigo. Em nenhum, no entanto, há cópia. Existe algo sim, que lembra a homenagem em maior ou menor tom.

Veríssimo constrói um romance saboroso, com personagens críveis e apaixonantes.


Uma leitura se não obrigatória (o quê realmente o é?); no mínimo necessária!

Mais uma chance para a DC Comics: A Multiversidade


Os leitores do blog devem ter percebido que a quantidade de reviews de séries mensais caiu drasticamente. Perdi a esperança em Marvel e DC há algum tempo!

Não reconheço os personagens e longe de um saudosismo tolo, não vi evolução. Peter Parker não é um professor casado, com filhos e que, nas horas vagas combate o crime; continua um basicamente a mesma coisa de 50 anos atrás. Os heróis não evoluem.

Batman continua sendo um solitário combatente do crime com dezenas de auxiliares!?!

Mas The Multiversity #01 me resgatou do mesmo jeito que haviam feito outras revistas ao longo destes 35 anos que leio quadrinhos. A série pode (e deve) desandar, mas gostei do conceito, afinal é uma requentada de Crise nas Infinitas Terras: um mal supremo obriga os heróis de diversas Terras a se unirem.

Se é café requentado, por que The Multiversity me prendeu?

Não sei exatamente. Talvez tenha uma grande relação com a arte de Ivan Reis, perfeita para a série. Um Superman negro em um universo de negros não traz nenhuma novidade. Ser o presidente dos EUA não é um conceito inovador. Parodiar a Marvel e o Universo Marvel Ultimate não é exatamente novo.

Reunir todos no satélite do Monitor e enviá-los para resgatar o último monitor também não!
Mas de repente se percebe o Capitão Cenoura e não se para a trama para explicar quem são aqueles personagens. O Dino Cop, evidentemente uma versão do The Savage Dragon, a Aquawoman, ou ainda a dupla de heróis homossexuais da Justiça 9 que lembra Flash e Lanterna Verde. Tudo é derramado sem nenhuma explicação além da simplista: um mal que ameaça o Multiverso obrigou novamente heróis de diversos mundos a se unirem em prol de uma causa comum.

Café requentado; eu sei!

Mas divertido.

Claro que Grant Morrison deverá introduzir algum conceito bizarro para que eu perca completamente o fio da meada nas edições seguintes.




Doctor Who [8x01] - Deep Breath


Eu sempre penso que quando as séries ganham audiência planetária, elas perdem algo de si. Doctor Who é a prova disto. Desde 2.010 a série está em um crescendo sem paralelos para o tema, o formato e o tipo de série.

Muito da série é ridículo, mas funciona bem em uma narrativa sci-fi, especialmente quando não vemos as imagens. Às vezes um vilão ou outro emborrachado choca pelo esquisito da situação, mas há uma boa dose de canastrice e o poder da descrença na série. Há episódios com todos os Doutores que são o quê há de melhor em sci-fi e há episódios, também com todos os Doutores que pensamos: deu tudo que tinha para dar!

O problema da nova temporada (sábado, 23/08/2014) é aprender demais com a atual safra de filmes americanos e assim explicar demais. Se o vilão, um complexo robô que está substituindo peças robóticas por órgãos humanos a milhares de anos, é misterioso ao ponto de termos mais perguntas que respostas, a condição da regeneração é exaustivamente explicada.

Peter Capaldi é o 12º Doctor e a 13ª encarnação do personagem – há o John Hurt, lembrem-se! Não existe espectador novato que não saiba que para justificar a troca de atores, os produtores “matam” e “regeneram” o personagem. Eu, que até este momento vi as regenerações que levaram ao Quarto Doutor, o War Doctor, o Nono, o Décimo, o Décimo Primeiro e o Décimo Segundo – apesar de já ter assistido a episódios com todos os Doutores – achei que foi a mais demorada explicação.

Clara Oswald a atual companheira, sendo a Garota Impossível, trabalhou com todos os Doutores, alguns sem saber, evidentemente. Ela, no entanto, assistiu a regeneração! Ela viu a mudança e mesmo assim achou que aquele ser não era o DOUTOR.

Para piorar vira e mexe o episódio retornava ao tema do estranho que era renascer em um novo corpo, com novos hábitos. E quando achávamos que o assunto tinha acabado, torna. E torna. E torna…

[A trama]
O novo Doutor e sua companheira, Clara Oswald, aterrissam na Londres Vitoriana junto com um dinossauro fêmea. Ficam aos cuidados de Madame Vastra, Jenny e Strax, enquanto o Doutor passa por um doloroso processo de redescoberta.

Um ciborgue, que vem matando cidadãos para adquirir peças de reposição para seus circuitos, mata o dinossauro, mas alguém o põe no caminho do Doutor e de Clara. Surge uma nova misteriosa personagem, chamada de Missy. O curioso é que o ciborgue faz o caminho inverso. Se tradicionalmente o ciborgue é um ser com partes robóticas e o clássico questionamento de perda da humanidade, aqui há o robô que recebe parte humanas e passa a ter alguns questionamentos também humanos.

Com tanto mistério por que tinham de explicar tanto a regeneração?

Nova versão do tema, nova abertura – algo de steampunk, novo figurino, nova TARDIS (externa e internamente) e novo Doutor. Tudo novo, mas cansa a quantidade de explicações. E como cansa!

Mas sábado que vem tem mais e já teremos esquecido as explicações. (Isso significa que explicarão de novo?)

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley


Qualquer que fosse a surpresa de Admirável Mundo Novo o tempo encarregou-se de dissipar. Sim, as pessoas são dadas umas às outras e trocam de pares com a mesma frequência de que os personagens e os animais.

Sim, existe um “cinema sensorial” que com suas tramas grandiloquentes e maniqueístas substituem o prazer da leitura, e este coitado, o livro, virou peça de repugnâncias - (“Você aí com o livro nas mãos! Sai com as mãos na cabeça!”).

Sim, mães e pais perderam o valor como instituição e surgem como procriadores que parem e cedem o filho ao mundo, aproximando o ato de um novo significado para a expressão “dar à luz”.

Sim, os dirigentes têm conhecimentos das verdades, mas preferem as cartilhas criadas pelos departamentos de propaganda e, invariavelmente, punem quem pensa ou age diferente.

Sim, quem não gosta de um determinado esporte não é normal, assim como quem não tem a maior quantidade de experiências sexuais. Especialmente no Brasil.

Aldous Huxley é tão passado, que seria brochante não fosse o vigor do texto. As 250 páginas são lidas como metade disto, num fôlego só.

* * *

A trama?

Em um futuro onde a razão substituiu tudo, onde os bebês são produzidos em linhas de montagem para determinadas classes sociais, onde Ford substituiu Deus, onde a droga da alienação – o soma – é fornecida pelo Estado, temos o desenrolar de um pequeno drama que envolve pessoas que estão deslocadas neste novo mundo e que, se não prezam totalmente “os valores arcaicos”, sentem falta de parte deles.

Um casal em visita a uma Reserva – um gueto onde vivem os incivilizados – descobrem um ser fruto do mundo civilizado, mas criado ali. Ele não pertence a nenhum dos mundos, não se encaixa em lugar algum e é convencido a ir à Londres do ano 634 dF (depois de Ford).

 
* * *

Há na trama aquela sensação de tragédia vindoura. Às vezes nota-se o destino dos personagens com dezenas de páginas de antecedência, mas há um interesse genuíno para saber quando capitularão.

Se o texto não traz nada de novo para a sociedade atual, ao menos nos alerta destes defeitos que temos e que não percebemos, ou percebemos e não nos importamos.

Junto com 1984 e Fahrenheit 451, estabelece uma tríade básica das distopias e oferece visões sem a água com açúcar de algumas das várias séries distópicas para adolescentes. Por sinal os três livros, sem necessidade de sequências, oferecem mais por mililitro de tinta negra que os litros nas páginas das aventuras açucaradas dos novos tempos.

Uma tríade que merece ser lida e divulgada.

To Rescue Tanelorn


Antes de mais nada devo confessar que esta não é uma aventura de Elric, mas do Red Archer – e não, não é o parceiro do Olliee é o segundo conto do segundo volume de crônicas do personagem principal (Chronicles of the Last Emperor of Melniboné: Volume 2 To Rescue Tanelorn, Del Rey, 2008).

Eu li o primeiro volume no início de 2013 e mesmo tinha iniciado o segundo volume há um ano, quando li que Michael Moorcock havia assinado um contrato para publicação de quatro livros no Brasil. Com a chegada da Saída de Emergência, que publica a série em Portugal, eu acreditei que não haveria maior demora.

Me enganei e retomei a leitura dos contos, que intercalarei entre os romances que lerei a partir de agora.

To Rescue Tanelorn, o conto, foi publicado pela primeira vez em Science Fantasy #56 de dezembro de 1.962 e ajuda a criar o cenário para a guerra entre o Caos e a forças da Ordem. Vale lembrar que no universo de Moorcock nenhuma das forças dá muita importância para a humanidade, daí neste conto os personagens decidirem auxílio aos lordes cinzentos, ou seja, nem branco (Ordem) nem negro (Caos), mas um meio termo. No texto a decisão é justificada com a explicação de que, atacados por forças do Caos, se pedissem auxílio à Ordem tomariam lado na guerra que ocorre.

Aqui conhecemos a cidade de Tanelorn, além do Deserto Sussurrante que é um ponto de repouso para os aventureiros e viajantes cansados; mas as forças de Lorde Narjhan, que lidera Nadsokor, a Cidade dos Mendingos, orientados pela agenda do Caos, partem para atacar Tanelorn.

Rackhir, o Arqueiro Vermelho, decide pedir auxílio aos Lordes Cinzentos e para tanto conta com a ajuda do ermitão e sábio Lamsar que irá conduzi-lo entre os reinos e portais interdimensionais – os Cinco Portões – para alcançar a dimensão dos tais lordes. A viagem, rápida e a descrição dos reinos é uma das partes mais saborosas do conto.



Resta saber se chegarão a tempo para salvar Tanelorn e, mais importante, se conseguirão a ajuda esperada.

[Impressões]
Depois da grandiosidade de The Eternal Champion – o conto que abre o volume, To Rescue Tanelorn parece uma história muito certinha e perfeita.

Na trama tudo dá certo e o quê cria um terrível contraponto entre a tragédia de Elric e a sorte de Rackir.

Feita para leitura rápida, o conto ajuda a criar o cenário das forças em conflito, da urgência do Caos atacar a Terra e as cidades livres, mas o quê fica ao final é a impressão de ser um conto menor, importante para criar um background para os eventos que já se concluíram no primeiro volume da coletânea.

[Artes & Adaptações]
Vale ressaltar que o livro é ilustrado com artes de Michael Wm Kaluta, lendário artista que se estabeleceu como artista de série de terror e fantasia nos anos 1.960/1.970, e que o artista faz uma belíssima ilustração do personagem que não tem relação alguma com a visão do artista da série The Vanishing Tower (First Comics, 1987/1988) donde tirei a ilustração que o apresenta à la Robin Hood.

O conto To Rescue Tanelorn foi adaptado para os quadrinhos em Elric: The Bane of the Black Sword #06 (1989) por Roy Thomas, Mary Mitchell e Eric Vincent, já nos estertores de First Comics. The Bane of the Black Sword é o nome da coletânea que anteriormente trazia o conto. Infelizmente a arte muito estilizada não faz jus ao clima sombrio que exige a história.









Roy Thomas é um dos principais autores da nona arte e responsável por adaptações de vários personagens de outras mídias para os quadrinhos, em especial, Conan e Star Wars – dois extremos. Seus trabalhos para a First Comics, adaptando o texto de Moorcock foram publicados em um momento em que se afastou da Marvel Comics (início dos anos 1.980) e após desenvolver as séries All-Star Squadron e Young All-Stars para a DC Comics.